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segunda-feira, julho 21, 2003

Bem-vindo a lado nenhum.

Aqui, onde se está, não se faz nada para além de nos sentarmos, a olhar para a rua, como se algo acontecesse por lá. Olhamo-nos, colocamos as mãos dentro dos bolsos e fingimos procurar uma chave para entrar em casa, mas não há chave, não há casa onde possamos entrar. Ficamo-nos pela porta, ainda do lado de fora, a olhar pelas janelas enquanto alguém se passeia dentro de nossa casa, enquanto vozes e risos surgem por dentro dos corredores e pensamos: "esta é a minha casa.. não é?" - e, a dada altura, começamos a reparar nas plantas que foram colocadas, uma de cada lado, em vasos iguais, cada uma de seu lado do tapete que diz "bem-vindo" e aí nos recordamos que nunca fomos benvindos a nossa casa. Surge, então, a dúvida se estaremos no sítio certo, se a rua é a certa, se não nos enganámos ao virar à esquerda e seria à direita mas não - temos a certeza de que não falhámos o caminho, de que ali é a porta certa, o tapete certo, os vasos certos, apesar de nunca os termos visto. Lemos o jornal que está sobre o tapete, a data é de ontem, os títulos já nós os conhecemos e tudo se assemelha a um replay ordinário. Ouvimos a mesma música a ecoar da janela do 4º esquerdo, vemos a vizinha que toma banho sempre à mesma hora a assomar-se à janela semi-nua, e olha-nos. Mas há algo diferente aqui. Ela olha-nos como que se não nos conhecesse, como se a nossa cara houvesse mudado, como se as roupas que trazemos hoje fossem trapos para os quais nunca nos deixariam sequer olhar. Mas sim, somos nós. Sim, estamos diferentes, mas somos nós na mesma. Os mesmos traços, a mesma voz, os dedos, a pele, a barba, tudo. Sim, somos nós, temos a certeza. Mas nesse momento, alguém surge de dentro da casa e olha-nos, a medo, como se fossemos ladrões sem saber o que roubar - se palavras se olhares - e a pessoa pergunta-nos: "O que deseja?" - respondemos então que nada, que ali é a nossa casa, que ali dentro está a nossa cama e os nosso livros, os nossos rostos e cheiros, os nossos corpos. Ouvimos, então, dizerem-nos que estamos enganados, e sabe-nos mal. Ouvimos poucas palavras, quando notamos já a pessoa que se diz dona de nossa casa se meteu para dentro, fugindo-nos ao olhar e às palavras e reparamos, aí, numa tabuleta estacada no fundo da rua: "Bem-vindo a outra cidade" e aí sabemos que estamos enganados, que aquela cidade não é nossa. Aí, parto, sem saber por que caminho, porque já não sou bem-vindo aqui.

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