í Outros dias existem muitos UTF-8 http://outrosdias.blogspot.com/feeds/posts/default

 

Outros dias existem muitos


de qualquer maneira, digamos que não.

 
 


  
Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Procuro o meu corpo todos os dias.

De manhã, tento erguer a voz de modo a sentir que estou aqui presente mas só surge uma leve rouquidão, quase imperceptível.

tento tocar a pele para ter a certeza que estou ali mas não há pele. a cabeça que tentou adormecer numa almofada que não era a minha está por demais cansada e, em último caso, tenta ir buscar memórias para sentir que está viva, mas não consegue.

portanto não há corpo.

assim, parte-se para o passo seguinte: tentar comunicar, de alguma forma, com outras entidades esquecidas na caixa do correio. não interessa a ordem do nome, ou o seu tamanho. não importa que não haja memória do mesmo ou que, se o nome for proferido, que não nos diga nada.

apesar de tudo, é um nome que nos vai ouvir.

surgem as sílabas do nome, começa a surgir um rosto como se a mente conseguisse lembrar. ao mesmo tempo, o meu corpo começa a ganhar forma e peso, quase como se o conseguisse tocar. estico os dedos para o peito, tento agarrar um bom pedaço de pele mas os dedos são translúcidos e atravessam o peito como se ele não existisse, como se ele não guardasse nada dentro de si.

a manhã continua. os movimentos tornam-se mais fréneticos e, ao mesmo tempo, mais sôfregos. a respiração, a única coisa física e mais similar a algo pálpavel, revela-se uma automotora sem caminho.

e aí encontra-se o pânico. o meu corpo não existe, a minha memória não funciona, os meus dedos não conseguem tocar e o meu peito já não guarda cicatrizes algumas. nada funciona. respiro demasiadamente rápido para conseguir reter oxigénio nos pulmões. a derme começa a suar mas as gotas caiem de imediato no lençol ainda quente porque não existe um corpo que as sustente.

grito

e no final já consigo abrir os olhos e ver o descarrilamento que surgiu sob a pele do corpo que regressa.


 


 


  
Terça-feira, Julho 07, 2009

existe arte na forma como se colocam palavras no lugar de rostos. existe um gosto refinado em, a meio da noite, ao invés de dormir e descansar como todos os outros, relembrar caminhos acidentados que não foram dar a lugar algum.

dá gosto olhar directamente nos nossos próprios olhos e ver como tudo está diferente:

as paredes são outras;
a face surge agora mais coberta e mais queimada pelo sol;
a respiração está mais pesada devido a inúmeros cigarros já desperdiçados:
e na cama há outros nomes que dormem sem serem pronunciados.

no entanto, é curioso imaginar como seria se nos tivéssemos atrasado a apanhar aquele comboio; como seria se tivéssemos dito ao ardina que não queríamos aquele jornal; como seria se tivéssemos esperado mais uns minutos para ouvir um "bom dia" novamente.

Talvez agora o nosso corpo estivesse noutro lugar, a ouvir outras histórias e com mais imagens para recordar.

mas eis que ela acorda durante a noite e nos leva para uma casa sem nada nas paredes.


 


 


  
Quinta-feira, Abril 30, 2009

rain coat.

As meias ensopadas entorpecem os pés, juntamente com o frio da noite caída. Estão esburacadas, tal como os sapatos, por onde o peso se distribui. Levantamo-nos devagar - sim, porque as forças não chegam para tudo - e pensamos em tudo menos naquilo que nos falta porque aí a lista seria infindável.

Saímos de casa onde as paredes são de cartão. Ligação directa para a rua, para os sons perdidos das pessoas que nem sequer imaginam o que é procurar o nosso lugar sem que haja mapas para lá chegar.

procuramos alimento para o corpo, para que a pele se despegue dos ossos de modo a permitir, quiçá, espaço para outro alguém dentro de nós. É difícil porque por aqui ninguém dá nada a ninguém, muito menos ajuda.

E a ansiedade cresce e propaga-se por cada milimetro do corpo, como um choque eléctrico que nos atordoa sem magoar porque o coração, esse, está demasiadamente escondido na pouca carne que nos resta.

acendemos um cigarro. Um cigarro não, uma beata porque não há dinheiro para mais. tentamos aproveitar tudo ao máximo porque depois já não há nada. pensamos na família, nos amigos, nos conhecidos ou nos trabalhos que, em tempos, desempenhámos.

e tudo isso está tão longe já.

caminhamos devagar porque os pés estão magoados. pousamos as mãos nas algibeiras para aquecer e disfarçar o frio mas o fundo, de tão gasto, já não existe e podemos ver o chão a desaparecer, passo ante passo.

assim, torna-se inevitável perder o rumo que um dia chegámos a ter e é então que deixamos de conseguir falar porque as palavras têm sentido quando ouvidas

e o mundo é surdo demais para perceber.


 


 


  
Segunda-feira, Março 02, 2009

Born old.

por vezes todos sabemos que precisamos do silêncio para sobreviver. precisamos da solidão para podermos olhar para nós próprios e saber quem somos, que somos algo mais que uma imagem desfocada no espelho enquanto nos afastamos dali.

olhamos estradas vazias e nocturnas como se não tivessem fim. pensamos que temos um destino a cumprir, que há algo de maior que nos conduz a um sítio que não sabemos onde é e terminamos sem saber como lá chegar.

paradise lost.

as músicas repetem-se nos ouvidos e assomam-se às pálpebras imagens ténues de rostos e de gentes. e é quando pensamos em tudo isto que notamos que nunca é tarde ou cedo demais para fazer algo que nunca fizemos:

podemos escrever mensagens na estrada para toda a gente ver e questionarem-se para quem será, ao mesmo tempo que esse alguém abre uma janela num 4º andar e olha, surpresa, para aquelas letras a verde, que lhe arrebatam o espírito - então, tinha um significado. agora, já o tempo apagou tudo isso.

voltamos ao presente, numa sala em silêncio - sim, porque precisamos do silêncio para nos sentirmos a nós próprios - e damos por nós a escrever e a recordar Rainer Maria Rilke que dizia algo como "acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever?": sim, temos de escrever porque não há outro modo de sentir.

cigarros. o seu cheiro nas mãos é inconfundível e indissociável daquilo que somos. tal como as tatuagens. obrigam-nos a olhar para dentro, apesar de estarem sobre a pele, ou entre ela. aí, notamos a necessidade emergente que se enclausurou, em tempos, nos resquícios do peito e que procura, ainda hoje, um striptease entre dois amantes cujas conversas são poemas inacabados à espera de uma noite eterna.


 


 


  
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Caros,


Infomo que já se encontra disponível para compra o livro Outros dias existem muitos. Poderão adquirir online o mesmo, carregando aqui. O preço é de 16€.


Podem também comprá-lo nas seguintes livrarias:


-Livraria Letra (Lisboa)


-Livraria Poetria (Porto)


-Tubo de Ensaio (Figueira da Foz)


-Letra 12 (Barreiro)


-Real Feytoria (Porto)


Caso prefiram, poderão entrar em contacto comigo para solicitar um exemplar, através do mail xarepesa@vodafone.pt


Espero que gostem da obra. Quaisquer críticas/questões/pedidos, estou à disposição através do e-mail indicado acima.


Sérgio Xarepe


 


 


  
Sexta-feira, Novembro 28, 2008

rush.

não sei como criar viagens no teu rosto azul e infantil. vejo a tua pele a saber a sal e apetece-me tocar-lhe, como se fosse um espelho em lágrimas onde o meu rosto se quebra em estilhaços estéreis

e damos-lhe um nome de criança.

toco-te as mãos para criar o calor febril de quem tem uma doença incurável a crescer no peito; sei que o teu nome já foi meu e mesmo assim chamei-te.

posso esvaziar os bolsos à procura de bilhetes, deitar fora as garrafas e os maços vazios, tirar o pó dos dedos para que escrevam

e mesmo assim o teu rosto vai saber a sal porque encaixas com perfeição no que resta da palma da minha mão.


 


 


  
Domingo, Novembro 23, 2008

V

acordas com os lábios secos a meio da noite. não sabes porquê.
acendes o cigarro à pressa porque queres adormecer e tens, colado aos olhos, o rosto que te surgiu durante o sono:

lembras a cor dos cabelos, os traços e a feição perfeita. até consegues sentir o cheiro nos dedos, misturado com o odor amargo do tabaco aceso.

molhas os lábios com a língua, passas a mão pelo rosto e sentes o teu respirar pesado, sôfrego, como se fosses implodir na penumbra, sem emitir qualquer som.

abres os olhos e ganhas a inevitável certeza que te diz a quem o filho pertence e qual o ventre que te espera na sala, sentada no sofá, com um olhar doce à tua espera

e um beijo de destino anónimo guardado lá dentro.


 


 

   

A escrita deixa de ter sentido quando deixa de ter resposta.

 

sítios com poesia
Corpos Editora
Refúgio da poesia
Antonio Gamoneda
Rui Pires Cabral
O poema contínuo cute;nuo- Herberto Helder
Always
Forum do Pure Hate
Poesias e prosas
Charles' photoblog

 

outras andanças
Ciclo vicioso
Odisseias
Blogopédia
Little Cherub
Cantinho da Ana
Cometas
Zuludasmeiasaltas
There's only Alice
Qualquer coisa tropia
Little Lucy in the sky
Pensamentos obscuros
Posts de pescada
Sem pressas
Rastilho
Sky race

 

arquivos

  • 07/01/2003 - 08/01/2003

  • 08/01/2003 - 09/01/2003

  • 09/01/2003 - 10/01/2003

  • 11/01/2003 - 12/01/2003

  • 12/01/2003 - 01/01/2004

  • 01/01/2004 - 02/01/2004

  • 02/01/2004 - 03/01/2004

  • 03/01/2004 - 04/01/2004

  • 04/01/2004 - 05/01/2004

  • 05/01/2004 - 06/01/2004

  • 06/01/2004 - 07/01/2004

  • 07/01/2004 - 08/01/2004

  • 08/01/2004 - 09/01/2004

  • 09/01/2004 - 10/01/2004

  • 10/01/2004 - 11/01/2004

  • 12/01/2004 - 01/01/2005

  • 01/01/2005 - 02/01/2005

  • 03/01/2005 - 04/01/2005

  • 04/01/2005 - 05/01/2005

  • 05/01/2005 - 06/01/2005

  • 06/01/2005 - 07/01/2005

  • 07/01/2005 - 08/01/2005

  • 10/01/2005 - 11/01/2005

  • 12/01/2005 - 01/01/2006

  • 01/01/2006 - 02/01/2006

  • 03/01/2006 - 04/01/2006

  • 04/01/2006 - 05/01/2006

  • 05/01/2006 - 06/01/2006

  • 07/01/2006 - 08/01/2006

  • 08/01/2006 - 09/01/2006

  • 09/01/2006 - 10/01/2006

  • 10/01/2006 - 11/01/2006

  • 11/01/2006 - 12/01/2006

  • 12/01/2006 - 01/01/2007

  • 01/01/2007 - 02/01/2007

  • 02/01/2007 - 03/01/2007

  • 04/01/2007 - 05/01/2007

  • 06/01/2007 - 07/01/2007

  • 07/01/2007 - 08/01/2007

  • 09/01/2007 - 10/01/2007

  • 10/01/2007 - 11/01/2007

  • 11/01/2007 - 12/01/2007

  • 02/01/2008 - 03/01/2008

  • 05/01/2008 - 06/01/2008

  • 08/01/2008 - 09/01/2008

  • 09/01/2008 - 10/01/2008

  • 11/01/2008 - 12/01/2008

  • 01/01/2009 - 02/01/2009

  • 03/01/2009 - 04/01/2009

  • 04/01/2009 - 05/01/2009

  • 07/01/2009 - 08/01/2009

  • 10/01/2009 - 11/01/2009

  •