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Outros dias existem muitos


de qualquer maneira, digamos que não.

 
 


  
Sexta-feira, Agosto 05, 2011

Partilhar lábios negros

toda a minha pele recorda aquele primeiro momento,
aquele primeiro beijo em que diríamos tudo o que
poderíamos dar a conhecer, daí para a frente.

tenho bem presentes nos dedos os segundos que antecederam o primeiro toque no cabelo, o primeiro olhar

tão cheio de desejo e intenção

do concretizar da emoção que criaste.
sei as vontades que os nossos peitos escondem
de viver uma realidade diferente, de ter o tempo do nosso lado
ou
simplesmente o lugar
sem olhares fugazes
sem despedidas incompletas e apressadas.

possúo a tua pele e o teu sorriso,
deixo o teu cheiro sentar-se bem ao meu lado apenas para ouvir a tua voz
dizer que
não é por uma noite que vicio os teus lábios negros.


 


 


  
Sábado, Julho 16, 2011

Partilhar Terra e sal.

é quase impossível explicar-te porque não fiquei no nosso retrato. dizem todos que a vida dá muitas voltas e sei que deixei o teu sorriso para trás.






era tudo o que menos queria. aquele sorriso que existia quando me sentias o cheiro. o sorriso que desvelavas quando me olhavas, tão cheia de amor e de sonhos.






tenho a perfeita noção do teu rosto enquanto dormias. e sim, vi-te dormir. vi-te fechar os olhos de cansaço, vi-te imaginar-nos, anos à frente, e sorrires por isso.



vi-te sentir a minha pele mais enrugada, tocares os meus cabelos mais grisalhos, tal como a barba que dizias não gostar.






e nessa fotografia eu fumava e mesmo assim tu sorrias. sorrias porque me tinhas pela mão, porque estaríamos não sei onde a fazer não sei o quê, mas estaríamos.






mas tudo isso foi deitado à terra, com sal para derreter. as nuvens que te sombreavam o rosto adensaram-se e tornaram-se escuras.






e de repente tudo aquilo que sempre me disseras tornara-se realidade. todas as defesas que eu havia quebrado tiveram uma razão de existir e eu perdi novamente o meu nome.






já não sei mais como me chamo. e sei que digo ter uma razão para tudo. sei que digo que sei tudo. e preferia não saber.






Como tu própria dizes: sei o que pensas sem dizeres uma palavra. e ainda hoje vejo. ainda hoje te consigo olhar, por mais que não queiras.



e hoje o manto branco cobre-te os olhos tristes sem que eu os possa beijar, em jeito de perdão, porque sei que os teus lábios estão retesados e fechados



porque sorrir foi algo que levei comigo e a doçura dos teus olhos ficou guardada no armário.




 


 


  
Terça-feira, Abril 12, 2011

O que há a dizer quando queremos parar de sonhar?

Nada. Há momentos em que o corpo deixa de imaginar coisas que não poderá ter, a mente deixa de desejar vultos que fogem e que não se sabe onde param.

os lábios regressam ao seu sabor salgado e seco

e é como se tudo fosse como antes:

a casa parece novamente mais vazia e os passos ecoam no soalho gélido. Os olhos percorrem o chão à procura de cartas inventadas à pressão mas não há letras que descrevam certos momentos

não há ninguém que conheça tudo aquilo que és e serás sempre uma surpresa com um sorriso nos lábios.


 


 


  
Domingo, Novembro 14, 2010

Partilhar Sónia

agarro a tua mão, como todas as noites. olho o teu rosto na minha mente, recordo cada milímetro, cada aroma, cada toque e quando dou por mim, as minhas mãos desenham no vácuo da casa os teus olhos, com a precisão de um artífice.

e assim consigo ver-te outra vez. recordo agora a viagem que me levou a ti. recordo o que encontrei e o que perdi. e sei que consegui.

sei, hoje, onde estás. sei novamente o sabor da tua pele e dos teus lábios. consigo ouvir a tua voz sem ser na memória e por tudo isso, agradeço.

e é assim que te amo, Sónia: imenso, todos os dias um pouco mais.


 


 


  
Domingo, Outubro 10, 2010

tudo isto começa sempre no mesmo sítio: no interior da algibeira.

andamos normalmente pelas ruas. uns dias chove, outros dias nem tanto. e o nosso rosto ressente-se disso. mas continuamos

até ao momento em que metemos as mãos aos bolsos, para nos protegermos dos invernos escuros e rugosos:

encontramos bilhetes de autocarro ou papéis impressos em máquinas,
num determinado momento,
em que estávamos acompanhados por
uma determinada pessoa ou assoberbados por
um determinado sentimento

e volta tudo de rompante.

aí, a mente recorda aquilo que fez ou que imaginou; o peito reescreve nas veias o ritmo a que o sangue pulsava, no momento em que as paredes secas pararam os gritos

e recordo a tua pele marcada e isso queima-me as pálpebras.

a minha voz encapela-se à medida em que te quer ver, de baixo para cima, e dizer que tudo não passou de um caminho errado, de um reflexo inesperado e impossível de reviver

mas, todas as noites, essa imagem retorna aos lençóis quentes e relembra o rosto que se viu ao espelho e não se reconheceu.

podia não ter sangue em redor do olhar, podia haver silêncio e uma aparente calmia mas
afinal eu não sei sempre tudo: assim notei que o espelho não produzia reflexo

e me enclausurei.

foi a partir daí que refiz o caminho de volta. não recordo a data, não recordo o momento - sabes que a minha memória já não é o que era

e talvez por isso tente apagar dos lábios o nome das crianças por nascer,
mas mesmo assim sei-os de cor, até que me amparem o corpo

ou me façam esquecer as tuas fotografias.


 


 


  
Terça-feira, Outubro 05, 2010

posso dizer que o meu corpo precisa de um início, que precisa de ser uma pele branca, sem cortes nem cicatrizes

mas não as consigo perder, por mais que queira.

tenho-as comigo, tenho-as tatuadas na derme e a primeira coisa que vês são as vozes que gritam, assim que te aproximas de mim.
e por mais que as tente calar, o meu corpo só obedece a ele próprio e, por tudo isso, nos separamos.

mas, mesmo assim, a minha garganta insurge-se contra os muitos anos de verdades dúbias e sentimentos desacertados:

tento recuperar a liberdade que um dia consegui sentir; o sorriso genuíno que, após largos anos, já não sei reproduzir; recupero os nomes que enumerámos e o rosto do nosso filho que não vimos nascer; o calor da pele que surge de rompante e emerge pelos lábios, até que consiga nomear-te e dar-te um rumo

e com tudo isto olho-te, à janela, do lado de fora. observo tudo aquilo que conseguiste sem mim, e vou embora.


 


 


  
Terça-feira, Agosto 17, 2010

Partilhar paredes secas.

dizemos às pessoas que gostamos, que dói mas passa.

ouvi-mo-las chorar perto de nós, aperta-se-nos o peito ao ponto de querermos
derrubar as paredes em actos violentos porque aquela criança em delírio
lhes irrompe pelo peito frágil

e o nosso aqui, tão estéril e seco.

tentamos reduzir as suas vidas a momentos fugazes,
a minutos em que nos amaram e eis que, então, saltamos logo para o final

fast forward para o amo-te mas não consigo mais viver contigo. the end.

sabemos que a casa ruirá, nestas quartas feiras de luto. mas naquela altura não. doía como não julgáramos, enquanto amantes,
ser possível

mas ardia e sangravam as mãos como se fossem feitas de veneno
o mesmo que rolava das faces impossíveis de nomear

e onde hoje existe apenas o pó que rola e se reproduz pelas planícies de sonhos eróticos,
perdidos em quem os tem
mas que não os partilha: porque a substituição é mais fácil
que o esquecimento

mas há incêndios que jazem sob a pele e queimam nos verões
em que não queremos o frio da despedida.


 


 

   

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