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domingo, dezembro 04, 2016

Rewind.

Por vezes, descobrimos aquela música que nos faz apenas sentir.

descobrimo-la por acaso, ao ver um quaquer programa na tv ou prescrutando a rádio ao acaso e ela simplesmente

surge.

Pensamos "parece que foi de propósito" e talvez tenha sido. Provavelmente foi porque, quando damos por nós,
os joelhos começam a deambular sozinhos e aleatoriamente; a cabeça começa a exercer um movimento
repetitivo e ritmico

ao som da memória que descobrimos

fechamos os olhos e é como se fossêmos materializados noutro mundo, para um qualquer sonho de uma noite mal dormida
em que conseguimos tão-somente

sentir
como se tivéssemos acabado de nascer e não soubéssemos nada deste mundo

ou de outros.

Simplesmente sabemos, naqueles minutos de puro ardor e alegria, como se sentem as mãos ao passar pelos girassóis que se estendem
pela memória, sabemos o toque na pele das temperaturas amenas de primaveras em que conseguimos sentir o amor
tao puro

como se quase fosse proibido de existir.

nesse instante, já todas as células que compõem a nossa derme vibram e chocam entre si;
já os nossos dedos batem violentamente na superficie que se nos depara - seja ela qual for -

e mantemos os olhos fechados, segurando o cigarro desajeitadamente, para que aquele tão-especifico momento, tão fugaz, não se
nos escape tão rápido como a nossa saborosa adolescência.

eis que a música termina apenas para recomeçar, como um rewind que é imperativo fazer

para poder escrever, mais uma vez, a falta que o amor faz quando sussurado aos ouvidos.

Listening to: Ludovico Einaudi - Experience

sábado, maio 09, 2015

Coincidência.

Não foi de rompante. Não foi sem aviso.

Aos poucos, foste invadindo as paredes e vestindo-as de regresso anunciado.

hoje conheci os filhos dos outros. tive-os no colo, fiz-lhes o cavalinho e gatinhei com eles, devagar. Construimos castelos e falámos em línguas indecifráveis, mas falámos

e julgo que estava com o rosto sereno que sempre conseguiste ver em mim.

Faltam apenas algumas horas para esta cidade se encher de gritos e euforia. E todos esses sons trazem á tona o cheiro dos nossos dias, dos festejos que partilhámos, das vezes em que envolvi o teu corpo no meu abraço para impedir que implodisses no meio de desconhecidos.

E quando o teu rosto sorri na memória, o peito inunda-se de fotografias que perdi ao longo dos anos.

como te disse, conheço os filhos dos outros

mas tu esqueceste o meu.

segunda-feira, maio 04, 2015

Norte.

não há nada a dizer quando o teu ser anónimo se assoma à janela para espreitar.

nada há a ver a não ser paredes que um dia tiveram um sítio para onde ir e sorrisos para lhes pendurar, com nomes e desenhos de cidades longínquas.

olhei imensas vezes para as palavras que pintaste na minha pele, para a fotografia que tiraste

comigo ainda a dormir

como que a tentares aprisionar o meu peito inquieto e fugídio num rolo de filme a preto e branco.

mas o fugitivo apenas aprendeu uma coisa durante a sua existência: partir.

ele chega a casa apenas para saber quando sair novamente, apenas para relembrar os lençóis que deixou ainda quentes, as mensagens ainda por ler e o teu rosto demasiado desvanecido para recordar.

é por isso que sei o nome de todas as ruas que te circundam, de todas as cidades por onde viajaste e os rostos por onde te perdeste:

porque onde estás é o único norte que me surge antes de adormecer.

quarta-feira, abril 15, 2015

S

I

não esperava que estivesses aí, ainda.

sempre pensei que o teu olhar se desviara, finalmente.

sempre pensei que o teu odor adocicado se afastara, de uma vez por todas, dos meus sentidos.

durante muito tempo, marquei no calendário a data do teu retorno e, no principio de cada ano, num dia muito específico, olhava para o céu à espera que nevasse - sempre nevou enquanto soubeste o meu nome.

mas deixou de nevar: deixei de ouvir a tua voz, de semestre a semestre, como acontecera até então.

recordei, durante meses, os lugares, os parques de estacionamento vazios, os olhos limpídos e cristalinos mas, anos volvidos, ainda sei de cor a reacção da tua pele ao vociferar do meu nome.


II

sei que os teus olhos brilhavam, apesar de não quereres que transparecesse.

sentia as tuas mãos, quentes e trémulas, à procura do seu lugar

e ele estava ali, tão perto 

lembro-me de tocar a tua pele, ao de leve, quase como uma brisa e saber que o teu corpo me conhecia.

mas aquilo que nunca soubeste foi que a minha voz também tremia, ao falar contigo;

os meus olhos rejubilavam por ter a visão da tua face, tão limpída e bela, à sua frente;
o teu odor tão esguio deixava-me com a sede de um fugitivo num deserto

e recordo-me que tudo isto aconteceu contigo - ali, tão perto - mas ainda hoje sei de cor a expressão que o teu rosto deixou escapar

por nos tocarmos pela última vez.

III

Ainda conheço o sabor da tua pele. E ainda reconheço o teu cheiro, o calor que emanas quando estás perto de mim, de nós.

Não sabia que voltarias, um dia.
Não sabia que me voltarias ao pensamento.
Não assim, de rompante.
Não assim, inesperadamente.

Quis que nunca tivesses saído daquele sofá, onde as serpentes que tinha em lugar das mãos passeavam no teu corpo feroz.

Quis que ficasses ali, a repetir aquela frase, como uma adolescente estupida de felicidade: I'm falling.


IV


Inúmeras foram as vezes em que segurei a tua mão na minha, em que te acariciei o cabelo sabendo o tremor que te irrompia pelas veias, pela derme e que se instalava, por fim, nos lábios.

Imensas foram as horas em que te imaginava sob o meu corpo, a tua respiração ofegante e larga, por sentir a magia que se seguiria.

E de cada vez que o vi, de cada vez que te sentia novamente nas minhas mãos, de cada vez que percorria cada milímetro da tua pele com os meus dedos - como na primeira vez - acordava, em sobressalto, sem que estivesses lá para me apaziguar com a tua voz serena, lânguida

doce.

V


Sabes o meu nome. É aquele que gritas, ofegante, quando sonhas a meio da noite, envolta no suor de me teres imaginado contigo toda a noite e depois acordas

sem mim.

sábado, abril 11, 2015

fui obrigado a acordar, de rompante.

obriguei-me a abrir os olhos, levantar a cabeça e a escrever.

Quis relembrar como se nunca me houvera esquecido de quem foste, como se ainda tivesse o teu rosto pousado nas minhas mãos, a escrever os dias que viriam, a cada momento.

Quase consigo viver novamente aquele olhar mágico e indelével que tinhas para mim, como se não houvesse ar para respirar sem ser aquele que a minha pele te permitia ter.

Agora? Restam os cigarros em catadupa e as noites com as tatuagens a servirem de mapas para um sorriso esquecido

e que perdi a meio caminho.

quinta-feira, abril 09, 2015

leão.

vim embora sem olhar para trás.

pensei em escrever-te assim que saí. pensei em saber de ti e tentar ouvir novamente aquele nome que me chamavas, de forma tão carinhosa.

lembrei-me depois das mensagens anónimas que me deixaste. tentei visualizar o que disseste, mas não fui capaz

tal como o teu rosto

sei agora que o meu sorriso é feito de momentos: o teu cabelo ao vento, a música a tocar no rádio que me ofereceste

e nós tão felizes e sem saber o que viria depois.

já não sei mais como chamar-te, tentei sonhar contigo e não resultou. tentei imaginar o teu rosto e é-me cada vez mais dificil desenhá-lo na escuridão do quarto. e a tua voz, essa, continua bem gravada no meu peito, misturada com o teu riso tímido de quem me chamava menino

sem saber que haveria de ser o homem que te deixou ir.

segunda-feira, agosto 11, 2014

A dada altura, parece-nos a melhor escolha.

Naquele momento, parece que o sorriso vai voltar e tudo vai ficar bem, quando cruzarmos a porta para não voltarmos mais.

tudo nos parece melhor do que aquilo que temos.

e eis que se nos depara o mal do mundo: a escolha.

decidir ir ou ficar. partir ou deixarmo-nos estar. e por esta altura o peito já dói demasiado para ignorar.

a boca já está seca por aquilo que vamos dizer a seguir e que queima a boca apenas por roçar os lábios que um dia disseram o que era o amor.

mas chega sempre o dia em que o inevitável se torna um momento real e palpável: chega sempre aquele outro dia em que não conseguimos fugir mais e o corpo é encostado a uma parede que não rui e que se tornou pequena demais para nos amparar o corpo.

abrem-se os olhos e todos os nossos crimes vagueiam por entre as pálpebras. os rostos abandonados à escrita reerguem-se e afirmam que nada está como devia

e que desta vez são os nossos lençóis que vamos deixar desfeitos, ainda mornos, a esquecer lentamente o nome que tivemos naquela casa.

agora não há uma face esvanecida que diga, em surdina, que está   tudo    bem.