Pesquisar neste blogue

segunda-feira, junho 07, 2010

partem em busca de paz porque o seu mundo se tornou insalubre.

compraram bilhetes e deram o pequeno passo que as levou para longe. não sei qual seria o seu destino, ou sequer se teriam algum.

e aí surgiu um fosso na pele que se encheu de palavras vãs. surgiram gritos que não queimaram a distância tão bem como queimam os cigarros

fuma-se para perder os nomes.

e trazem uma vida nova nos seios. trazem novos nomes, novas caras e expressões e é como se não nos conhecêssemos. as memórias ficam turvas, os toques e os cheiros perdem-se pelo corpo

percorremos as insónias como as ruas da cidade que se agita enquanto tentamos apagar de nós as discussões patéticas

que nos afastam simultâneamente.

quinta-feira, maio 13, 2010

com um olho no que ficou para trás e a vista começa a
ficar turva.

o corpo começa a notar-se cansado e a voz já não fala
como antes

agora cada palavra soa trémula e frágil

como se a garganta estivesse prestes a ceder.

nomes e nomes podem soar mas são apenas nomes ocos.
já não há fotografias no telefone quando ele toca
porque deixou de ter músicas que tocar.

existe apenas o espaço suficiente para rotinas de substituição
e choros em convulsão.

a pele tatua-se como forma moderna de exteriorizar os gritos do peito

porque os outros mundos estão demasiado longe e ninguém
te procuraria por lá.

segunda-feira, abril 26, 2010

há dias assim.

há aqueles dias em que não conseguimos sossegar, onde quer que estejamos. há horas em que fumamos em catadupa mas o peso da pele não passa e ainda grita.

tentamos comer sabendo que já não há alimento. iludir o corpo é algo bastante fácil que se consegue com anos e anos de treino.

mas mesmo assim o peso no peito não passa. e agora queima.

irritamo-nos, sentimos que a face se ruboriza de raiva ou de tristeza - já não se consegue distinguir - e tentamos falar: nada sai, apenas sons imperceptíveis balbuciados entre lágrimas.

porque choras? - pergunta uma criança imaginada em tempos mas sem nome.

não há resposta. não há motivos. não é preciso ninguém saber o porquê. ninguém entenderia. ninguém saberia o que fazer.

ninguém te saberia dizer que está tudo bem

como tu próprio explicaste, em tempos.

o peso no peito já dilacera o raciocínio. a única resposta que surge é fugir mas .. os dias de fugir sem destino já lá vão; o corpo já não aguenta o cansaço de nomes e nomes e nomes seguidos a ritmos alucinantes

that's not my life anymore. mas existirá sempre a puta do passado do qual só restam tatuagens.

e o telefone toca, ecoando rostos perdidos por entre os actos indeléveis. e pedir perdão já não se usa e já ninguém quer saber.

a criança fica, portanto, sem resposta.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

pequena.

o que dizer da paz que nos visita enquanto dormimos?

passam-se anos em que procuramos, sem saber muito bem como, algo que faça a cara esticar-se e sorrir; desvendamos ruas sem olhar as fotografias que tirámos apenas porque já são antigas

já ficaram lá atrás.

falamos coisas inúteis e incessantes sabendo que nada de profícuo nos consome: que nada eterno nos enche a carne e a pele.

sabemos mas esperamos o contrário.

e, de quando em vez, sem notarmos, algo se deita a nosso lado, muito sossegado, e geme baixinho.

durante alguns anos, não ouvimos. temos o ouvido perdido noutros nomes, temos os dedos a percorrer, sem sentirem, outra pele.

partilhamos o sexo porque mais nada sabemos fazer, naquele momento, naquele então. doamos o nome ao ocupante anónimo do nosso corpo.
e perseguimos uma voz etérea, uma sombra.

e, a dada altura, já não sabemos quem somos. olhamo-nos ao espelho, assustamo-nos: quem és tu? - dizemos a nós próprios

e rimos com a resposta.

e é então que surge uma bifurcação do espírito: arrancamos a pele deixando o coração intacto e meio cheio

ou olhamos para o lado e vemos que a pequena que descansa sabe perfeitamente como segurar as nossas mãos, sem que doa.

sorrimos porque chegaste.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

prisioneiro

tira-me daqui - diz o prisioneiro.

sabe que está preso por sua culpa. a liberdade retirada nada mais é que um doce servido tarde demais.

ouve as vozes lá fora sabendo que as palavras são imperceptíveis. os visitantes assomam-se aos seus olhos e a febre tolda-lhe a memória:
não se recorda dos nomes nem das posições.

sabe de cor o cheiro porque é a única coisa que penetra os grilhões e a cárcere que lhe mantém a mente absorta,
como que anestesiada.

surgem gemidos durante a noite. o acompanhamento liquído da dor que irrompe pela boca, sem aviso e sem piedade.

a sua voz torna-se pó: suja quem a ouve. e castiga quem não pode.

o sol não existe lá fora mesmo que não o possas tocar. mesmo que a tua pele incandesça e sinta mil verões de uma só vez:
todo o suor é apenas o purgatório para saberes exactamente o que dizer

quando te deixarem sair.

segunda-feira, outubro 19, 2009

Procuro o meu corpo todos os dias.

De manhã, tento erguer a voz de modo a sentir que estou aqui presente mas só surge uma leve rouquidão, quase imperceptível.

tento tocar a pele para ter a certeza que estou ali mas não há pele. a cabeça que tentou adormecer numa almofada que não era a minha está por demais cansada e, em último caso, tenta ir buscar memórias para sentir que está viva, mas não consegue.

portanto não há corpo.

assim, parte-se para o passo seguinte: tentar comunicar, de alguma forma, com outras entidades esquecidas na caixa do correio. não interessa a ordem do nome, ou o seu tamanho. não importa que não haja memória do mesmo ou que, se o nome for proferido, que não nos diga nada.

apesar de tudo, é um nome que nos vai ouvir.

surgem as sílabas do nome, começa a surgir um rosto como se a mente conseguisse lembrar. ao mesmo tempo, o meu corpo começa a ganhar forma e peso, quase como se o conseguisse tocar. estico os dedos para o peito, tento agarrar um bom pedaço de pele mas os dedos são translúcidos e atravessam o peito como se ele não existisse, como se ele não guardasse nada dentro de si.

a manhã continua. os movimentos tornam-se mais fréneticos e, ao mesmo tempo, mais sôfregos. a respiração, a única coisa física e mais similar a algo pálpavel, revela-se uma automotora sem caminho.

e aí encontra-se o pânico. o meu corpo não existe, a minha memória não funciona, os meus dedos não conseguem tocar e o meu peito já não guarda cicatrizes algumas. nada funciona. respiro demasiadamente rápido para conseguir reter oxigénio nos pulmões. a derme começa a suar mas as gotas caiem de imediato no lençol ainda quente porque não existe um corpo que as sustente.

grito

e no final já consigo abrir os olhos e ver o descarrilamento que surgiu sob a pele do corpo que regressa.

terça-feira, julho 07, 2009

existe arte na forma como se colocam palavras no lugar de rostos. existe um gosto refinado em, a meio da noite, ao invés de dormir e descansar como todos os outros, relembrar caminhos acidentados que não foram dar a lugar algum.

dá gosto olhar directamente nos nossos próprios olhos e ver como tudo está diferente:

as paredes são outras;
a face surge agora mais coberta e mais queimada pelo sol;
a respiração está mais pesada devido a inúmeros cigarros já desperdiçados:
e na cama há outros nomes que dormem sem serem pronunciados.

no entanto, é curioso imaginar como seria se nos tivéssemos atrasado a apanhar aquele comboio; como seria se tivéssemos dito ao ardina que não queríamos aquele jornal; como seria se tivéssemos esperado mais uns minutos para ouvir um "bom dia" novamente.

Talvez agora o nosso corpo estivesse noutro lugar, a ouvir outras histórias e com mais imagens para recordar.

mas eis que ela acorda durante a noite e nos leva para uma casa sem nada nas paredes.

quinta-feira, abril 30, 2009

rain coat.

As meias ensopadas entorpecem os pés, juntamente com o frio da noite caída. Estão esburacadas, tal como os sapatos, por onde o peso se distribui. Levantamo-nos devagar - sim, porque as forças não chegam para tudo - e pensamos em tudo menos naquilo que nos falta porque aí a lista seria infindável.

Saímos de casa onde as paredes são de cartão. Ligação directa para a rua, para os sons perdidos das pessoas que nem sequer imaginam o que é procurar o nosso lugar sem que haja mapas para lá chegar.

procuramos alimento para o corpo, para que a pele se despegue dos ossos de modo a permitir, quiçá, espaço para outro alguém dentro de nós. É difícil porque por aqui ninguém dá nada a ninguém, muito menos ajuda.

E a ansiedade cresce e propaga-se por cada milimetro do corpo, como um choque eléctrico que nos atordoa sem magoar porque o coração, esse, está demasiadamente escondido na pouca carne que nos resta.

acendemos um cigarro. Um cigarro não, uma beata porque não há dinheiro para mais. tentamos aproveitar tudo ao máximo porque depois já não há nada. pensamos na família, nos amigos, nos conhecidos ou nos trabalhos que, em tempos, desempenhámos.

e tudo isso está tão longe já.

caminhamos devagar porque os pés estão magoados. pousamos as mãos nas algibeiras para aquecer e disfarçar o frio mas o fundo, de tão gasto, já não existe e podemos ver o chão a desaparecer, passo ante passo.

assim, torna-se inevitável perder o rumo que um dia chegámos a ter e é então que deixamos de conseguir falar porque as palavras têm sentido quando ouvidas

e o mundo é surdo demais para perceber.

segunda-feira, março 02, 2009

Born old.

por vezes todos sabemos que precisamos do silêncio para sobreviver. precisamos da solidão para podermos olhar para nós próprios e saber quem somos, que somos algo mais que uma imagem desfocada no espelho enquanto nos afastamos dali.

olhamos estradas vazias e nocturnas como se não tivessem fim. pensamos que temos um destino a cumprir, que há algo de maior que nos conduz a um sítio que não sabemos onde é e terminamos sem saber como lá chegar.

paradise lost.

as músicas repetem-se nos ouvidos e assomam-se às pálpebras imagens ténues de rostos e de gentes. e é quando pensamos em tudo isto que notamos que nunca é tarde ou cedo demais para fazer algo que nunca fizemos:

podemos escrever mensagens na estrada para toda a gente ver e questionarem-se para quem será, ao mesmo tempo que esse alguém abre uma janela num 4º andar e olha, surpresa, para aquelas letras a verde, que lhe arrebatam o espírito - então, tinha um significado. agora, já o tempo apagou tudo isso.

voltamos ao presente, numa sala em silêncio - sim, porque precisamos do silêncio para nos sentirmos a nós próprios - e damos por nós a escrever e a recordar Rainer Maria Rilke que dizia algo como "acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever?": sim, temos de escrever porque não há outro modo de sentir.

cigarros. o seu cheiro nas mãos é inconfundível e indissociável daquilo que somos. tal como as tatuagens. obrigam-nos a olhar para dentro, apesar de estarem sobre a pele, ou entre ela. aí, notamos a necessidade emergente que se enclausurou, em tempos, nos resquícios do peito e que procura, ainda hoje, um striptease entre dois amantes cujas conversas são poemas inacabados à espera de uma noite eterna.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Caros,

Infomo que já se encontra disponível para compra o livro Outros dias existem muitos. Poderão adquirir online o mesmo, carregando aqui. O preço é de 16€.


Podem também comprá-lo nas seguintes livrarias:


-Livraria Letra (Lisboa)


-Livraria Poetria (Porto)


-Tubo de Ensaio (Figueira da Foz)


-Letra 12 (Barreiro)


-Real Feytoria (Porto)


Caso prefiram, poderão entrar em contacto comigo para solicitar um exemplar, através do mail xarepesa@vodafone.pt


Espero que gostem da obra. Quaisquer críticas/questões/pedidos, estou à disposição através do e-mail indicado acima.


Sérgio Xarepe

sexta-feira, novembro 28, 2008

rush.

não sei como criar viagens no teu rosto azul e infantil. vejo a tua pele a saber a sal e apetece-me tocar-lhe, como se fosse um espelho em lágrimas onde o meu rosto se quebra em estilhaços estéreis

e damos-lhe um nome de criança.

toco-te as mãos para criar o calor febril de quem tem uma doença incurável a crescer no peito; sei que o teu nome já foi meu e mesmo assim chamei-te.

posso esvaziar os bolsos à procura de bilhetes, deitar fora as garrafas e os maços vazios, tirar o pó dos dedos para que escrevam

e mesmo assim o teu rosto vai saber a sal porque encaixas com perfeição no que resta da palma da minha mão.

domingo, novembro 23, 2008

V

acordas com os lábios secos a meio da noite. não sabes porquê.
acendes o cigarro à pressa porque queres adormecer e tens, colado aos olhos, o rosto que te surgiu durante o sono:

lembras a cor dos cabelos, os traços e a feição perfeita. até consegues sentir o cheiro nos dedos, misturado com o odor amargo do tabaco aceso.

molhas os lábios com a língua, passas a mão pelo rosto e sentes o teu respirar pesado, sôfrego, como se fosses implodir na penumbra, sem emitir qualquer som.

abres os olhos e ganhas a inevitável certeza que te diz a quem o filho pertence e qual o ventre que te espera na sala, sentada no sofá, com um olhar doce à tua espera

e um beijo de destino anónimo guardado lá dentro.

domingo, novembro 16, 2008

às vezes consegues sentir os sonhos na palma da mão.

e é quando tudo caminha para a rua certa que uma luz se apaga e mesmo assim consegues ver no meio da penumbra. vês um par de olhos de água, consegues ver o seu sorriso e pensas: "o que estarias a pensar?" e sabes que não terás resposta.

esperas com o corpo em repouso. recordas o calor das ilhas como se lá tivesses estado e sabes que há algo que não te poderão tirar: a criança que trazes cá dentro.

e abraças e dás a mão e acaricias para que sossegue mas, ao mesmo tempo, prendes-lhe a mão porque não queres que se vá embora.

terça-feira, setembro 23, 2008

Outros dias existem muitos

Ao caro leitor que por vezes se perde e encontra neste blog:

Tenho o prazer de informar que o livro "Outros dias existem muitos" será publicado em Outubro, numa data a confirmar posteriormente.

one more perfect day.

domingo, setembro 14, 2008

Equilíbrio

Pegas no controlo remoto que julgas ter sobre a vida e colocas em silêncio. Sentas-te meticulosamente a meio do sofá já gasto para teres o equilíbrio que por vezes escapa.

procuras palavras entre comentários desconhecidos e rostos onde não os há. "a tarefa de sentir é lixada".
- se não estiveres aí, não sei onde estou. o corpo procura uma direcção, um caminho com tabuletas estéreis onde tudo aquilo que a pele deita fora possa significar algo.

esqueces amigos porque deixas os dias passarem sob a pele, sem que lhes digas o que são ou o que tiveram. a tua voz escala paredes da casa mas é como se, no vácuo, não existisses:
tens cor, tens temperatura mas estás vazio.

perguntam-te: a quem te dás? e a resposta teima em ser igual. recordas discursos longos e poemas infrutíferos. tacteias os rostos que ainda queimam as pálpebras de vez em quando

tentar dormir é inútil, tens fantasmas que gritam nas tuas mãos.

e escreves. colocas-te agora à janela. Olhas para a casa como se estivesse vazia e apenas sentes que esta não é a tua casa.

obrigas-te a gostar dos cantos, das paredes, dos tapetes mas, mesmo assim, não é aqui que moras. o teu nome não está escrito à porta, os vizinhos não te conhecem, os lençóis não têm o teu cheiro.

é apenas um espaço oco e frio, onde o corpo se imiscui noutros corpos numa busca vã de amor, sem que o saibas soletrar. perdeste a voz quando começaste a viajar e nem as cidades sem nome conseguem fazer-te parar a procura

de um rosto com nome.

domingo, agosto 17, 2008

faces

As noites são as horas intermináveis de espera. respira-se sofregamente para que o suor se extinga

para que os medos desapareçam.

Relembras o gesto com as palavras à mistura. Estendes a mão em jeito de cumprimento - ficas na dúvida se o deverias ter feito.

a distância é grande e és notado pela personagem do conto de fadas.

a tua derme respira incessantemente como que a querer fugir de ti próprio: tens novamente um corpo dentro de ti a querer ocupar-te, a querer rasgar-te a pele para que não te reconheças mais.

dizes: já sabia o teu nome e o teu rosto antes de te conhecer

e acordas em sobressalto sabendo que não era real. os teus lábios estão secos, as tuas mãos tremem e contorcem-se porque a realidade é diferente e o calendário marca outro dia.

olhas para o lado e vês mais um nome para esquecer. sentes o cheiro a sexo em ti e nas paredes do quarto. não há sangue, não há carne espalhada.

apenas mais um rosto para esquecer enquanto tentas lembrar aquele que fugiu

this is the end of magic.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

medo.

porque partiste há meses e nunca mais voltaste aqui?

usas a pele como ponte para o silêncio. vês rostos antigos passarem-te à frente mas o teu corpo está tão pesado que não consegues lá chegar

quis falar contigo quando nasceste

mas sei que não me entenderias. pensei: tenho tempo. afinal era engano: o tempo esgotou e continuas sem me entender.

sabes os gritos de cor, sabes as palavras que se usam em cada momento ou em cada maneira de sentir: sabes exactamente o passo a dar quando a tua mente se inebria com perfumes baratos em locais escuros.

- tudo o que querias era aquela música outra vez

e sabes que foste o primeiro mas de nada te vale. sabes que perduras e que ainda recordam o teu cheiro; sabes que quiseste partir para um sítio longe daqui porque, depois de algo tão grande, tudo te parece pequeno para te preencher.

há-de chegar o dia em que, no meio de tanta gente que te observa as rugas, te deparas com aquela que te vê apenas o medo.

terça-feira, novembro 27, 2007

essência

penduras no corpo as cruzes do dia que passou e pedes a gente conhecida que te olhe e te diga que não és invisível.

tens na voz o nervosismo da hora; o cansaço começa a apoderar-se das tuas memórias e apenas olhos reluzentes surgem, no meio de actos impensados e imberbes

depois de tudo, acordas.

metes as mãos à cabeça e afagas a barba como que a pedir perdão por não conseguires descansar. pedes ajuda em tons de surdez

e ninguém ouve

partes à procura de conversas imperceptíveis; prescrutas as ruas da cidade para lhe tomares o gosto e descobrires o seu nome. os olhos doem-te do esforço de ver

reconheces em todos rasgos de
mágoa e
de arrependimento

fazes-te à estrada sem olhares para as placas. não queres saber quilometragens ou direcções. caminhas sem fim e sem espírito: tudo o que eras ficou no quarto, preso à cama, momentos antes de fechares a porta.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Já não te guardo raiva. sabes isso.

já não guardo em mim as fotografias que tirámos, as músicas que ouvimos, nada. guardo apenas o teu sorriso de quando te vi pela primeira vez. guardo apenas o teu primeiro olhar de quando desceste pelas escadas e soubeste que iria terminar, um dia.

sei de cor cada momento que aconteceu nesse dia. e ainda sei o teu nome como se fosse meu mas .. apenas isso. estás por aí, algures. deves estar bem porque as más notícias correm sempre mais depressa e essas ainda não me chegaram. espero também que tenhas alcançado a tua paz. a minha, essa, ainda está longe. existem imensas coisas que poderia dizer-te e que guardei durante anos. imaginei por diversas vezes se o teu sorriso está diferente, se o toque das tuas mãos ainda tem a mesma ternura ou o mesmo cheiro. guardo para mim a imagem que tenho de ver-te dormir. e essa não mostro a ninguém porque apenas eu vi. era eu que te velava o sono e agora já não. os nomes que escolhemos juntos já não se adequam aqueles que contigo crescerão e que vão aprender por ti o que é isto tudo: o mundo. e sempre disseste que eu tinha uma visão muito peculiar dele, quiçá especial. e eu sorria.

posso dizer-te que aquele que era contigo já não existe mais; que os olhos que te olhavam, doces, já não brilham da mesma maneira. hás-de, um dia, olhar para trás e sentir no teu peito o peso que tive no teu mundo. e se, por acaso, não conseguires respirar, será porque te falto e porque estou diferente.

já não tenho o mesmo nome que ouviste outrora. as minhas mãos já não escrevem como antes. as tuas sim. mas quero que guardes em ti a certeza de que foram estas mesmas mãos que escreveram no asfalto "amo-te" como se fosse eterno e são elas que hoje te dizem: já não te amo mais, fui embora.