Pesquisar neste blogue

quarta-feira, outubro 12, 2022

Noites

As noites tornam-se mais longas com a mente a sobrevoar o tempo em que estás.


Fazemos experiências em como tornar o coração mais breve e calmo, perseguimos sorrisos que teimaste em não tornar temporários e 


A procura cada vez se torna mais disforme e demorada.


Saltamos músicas na memória e percorremos todos os quilómetros até à tua face - tão bela 


E mesmo sabendo que a febre que te invade já não tem cura


O olhar ainda te procura ao longe, 

relembrando 


as refeições por compartir

As garrafas de vinho por abrir

E aqueles toques cúmplices na pele


O que resta agora é desenhar os teus furacões e ter a certeza


Lá bem no fundo


Que só bastava teres dito não. 

domingo, dezembro 04, 2016

Rewind.

Por vezes, descobrimos aquela música que nos faz apenas sentir.

descobrimo-la por acaso, ao ver um quaquer programa na tv ou prescrutando a rádio ao acaso e ela simplesmente

surge.

Pensamos "parece que foi de propósito" e talvez tenha sido. Provavelmente foi porque, quando damos por nós,
os joelhos começam a deambular sozinhos e aleatoriamente; a cabeça começa a exercer um movimento
repetitivo e ritmico

ao som da memória que descobrimos

fechamos os olhos e é como se fossêmos materializados noutro mundo, para um qualquer sonho de uma noite mal dormida
em que conseguimos tão-somente

sentir
como se tivéssemos acabado de nascer e não soubéssemos nada deste mundo

ou de outros.

Simplesmente sabemos, naqueles minutos de puro ardor e alegria, como se sentem as mãos ao passar pelos girassóis que se estendem
pela memória, sabemos o toque na pele das temperaturas amenas de primaveras em que conseguimos sentir o amor
tao puro

como se quase fosse proibido de existir.

nesse instante, já todas as células que compõem a nossa derme vibram e chocam entre si;
já os nossos dedos batem violentamente na superficie que se nos depara - seja ela qual for -

e mantemos os olhos fechados, segurando o cigarro desajeitadamente, para que aquele tão-especifico momento, tão fugaz, não se
nos escape tão rápido como a nossa saborosa adolescência.

eis que a música termina apenas para recomeçar, como um rewind que é imperativo fazer

para poder escrever, mais uma vez, a falta que o amor faz quando sussurado aos ouvidos.

Listening to: Ludovico Einaudi - Experience

sábado, maio 09, 2015

Coincidência.

Não foi de rompante. Não foi sem aviso.

Aos poucos, foste invadindo as paredes e vestindo-as de regresso anunciado.

hoje conheci os filhos dos outros. tive-os no colo, fiz-lhes o cavalinho e gatinhei com eles, devagar. Construimos castelos e falámos em línguas indecifráveis, mas falámos

e julgo que estava com o rosto sereno que sempre conseguiste ver em mim.

Faltam apenas algumas horas para esta cidade se encher de gritos e euforia. E todos esses sons trazem á tona o cheiro dos nossos dias, dos festejos que partilhámos, das vezes em que envolvi o teu corpo no meu abraço para impedir que implodisses no meio de desconhecidos.

E quando o teu rosto sorri na memória, o peito inunda-se de fotografias que perdi ao longo dos anos.

como te disse, conheço os filhos dos outros

mas tu esqueceste o meu.

segunda-feira, maio 04, 2015

Norte.

não há nada a dizer quando o teu ser anónimo se assoma à janela para espreitar.

nada há a ver a não ser paredes que um dia tiveram um sítio para onde ir e sorrisos para lhes pendurar, com nomes e desenhos de cidades longínquas.

olhei imensas vezes para as palavras que pintaste na minha pele, para a fotografia que tiraste

comigo ainda a dormir

como que a tentares aprisionar o meu peito inquieto e fugídio num rolo de filme a preto e branco.

mas o fugitivo apenas aprendeu uma coisa durante a sua existência: partir.

ele chega a casa apenas para saber quando sair novamente, apenas para relembrar os lençóis que deixou ainda quentes, as mensagens ainda por ler e o teu rosto demasiado desvanecido para recordar.

é por isso que sei o nome de todas as ruas que te circundam, de todas as cidades por onde viajaste e os rostos por onde te perdeste:

porque onde estás é o único norte que me surge antes de adormecer.

quarta-feira, abril 15, 2015

S

I

não esperava que estivesses aí, ainda.

sempre pensei que o teu olhar se desviara, finalmente.

sempre pensei que o teu odor adocicado se afastara, de uma vez por todas, dos meus sentidos.

durante muito tempo, marquei no calendário a data do teu retorno e, no principio de cada ano, num dia muito específico, olhava para o céu à espera que nevasse - sempre nevou enquanto soubeste o meu nome.

mas deixou de nevar: deixei de ouvir a tua voz, de semestre a semestre, como acontecera até então.

recordei, durante meses, os lugares, os parques de estacionamento vazios, os olhos limpídos e cristalinos mas, anos volvidos, ainda sei de cor a reacção da tua pele ao vociferar do meu nome.


II

sei que os teus olhos brilhavam, apesar de não quereres que transparecesse.

sentia as tuas mãos, quentes e trémulas, à procura do seu lugar

e ele estava ali, tão perto 

lembro-me de tocar a tua pele, ao de leve, quase como uma brisa e saber que o teu corpo me conhecia.

mas aquilo que nunca soubeste foi que a minha voz também tremia, ao falar contigo;

os meus olhos rejubilavam por ter a visão da tua face, tão limpída e bela, à sua frente;
o teu odor tão esguio deixava-me com a sede de um fugitivo num deserto

e recordo-me que tudo isto aconteceu contigo - ali, tão perto - mas ainda hoje sei de cor a expressão que o teu rosto deixou escapar

por nos tocarmos pela última vez.

III

Ainda conheço o sabor da tua pele. E ainda reconheço o teu cheiro, o calor que emanas quando estás perto de mim, de nós.

Não sabia que voltarias, um dia.
Não sabia que me voltarias ao pensamento.
Não assim, de rompante.
Não assim, inesperadamente.

Quis que nunca tivesses saído daquele sofá, onde as serpentes que tinha em lugar das mãos passeavam no teu corpo feroz.

Quis que ficasses ali, a repetir aquela frase, como uma adolescente estupida de felicidade: I'm falling.


IV


Inúmeras foram as vezes em que segurei a tua mão na minha, em que te acariciei o cabelo sabendo o tremor que te irrompia pelas veias, pela derme e que se instalava, por fim, nos lábios.

Imensas foram as horas em que te imaginava sob o meu corpo, a tua respiração ofegante e larga, por sentir a magia que se seguiria.

E de cada vez que o vi, de cada vez que te sentia novamente nas minhas mãos, de cada vez que percorria cada milímetro da tua pele com os meus dedos - como na primeira vez - acordava, em sobressalto, sem que estivesses lá para me apaziguar com a tua voz serena, lânguida

doce.

V


Sabes o meu nome. É aquele que gritas, ofegante, quando sonhas a meio da noite, envolta no suor de me teres imaginado contigo toda a noite e depois acordas

sem mim.

sábado, abril 11, 2015

fui obrigado a acordar, de rompante.

obriguei-me a abrir os olhos, levantar a cabeça e a escrever.

Quis relembrar como se nunca me houvera esquecido de quem foste, como se ainda tivesse o teu rosto pousado nas minhas mãos, a escrever os dias que viriam, a cada momento.

Quase consigo viver novamente aquele olhar mágico e indelével que tinhas para mim, como se não houvesse ar para respirar sem ser aquele que a minha pele te permitia ter.

Agora? Restam os cigarros em catadupa e as noites com as tatuagens a servirem de mapas para um sorriso esquecido

e que perdi a meio caminho.

quinta-feira, abril 09, 2015

leão.

vim embora sem olhar para trás.

pensei em escrever-te assim que saí. pensei em saber de ti e tentar ouvir novamente aquele nome que me chamavas, de forma tão carinhosa.

lembrei-me depois das mensagens anónimas que me deixaste. tentei visualizar o que disseste, mas não fui capaz

tal como o teu rosto

sei agora que o meu sorriso é feito de momentos: o teu cabelo ao vento, a música a tocar no rádio que me ofereceste

e nós tão felizes e sem saber o que viria depois.

já não sei mais como chamar-te, tentei sonhar contigo e não resultou. tentei imaginar o teu rosto e é-me cada vez mais dificil desenhá-lo na escuridão do quarto. e a tua voz, essa, continua bem gravada no meu peito, misturada com o teu riso tímido de quem me chamava menino

sem saber que haveria de ser o homem que te deixou ir.

segunda-feira, agosto 11, 2014

A dada altura, parece-nos a melhor escolha.

Naquele momento, parece que o sorriso vai voltar e tudo vai ficar bem, quando cruzarmos a porta para não voltarmos mais.

tudo nos parece melhor do que aquilo que temos.

e eis que se nos depara o mal do mundo: a escolha.

decidir ir ou ficar. partir ou deixarmo-nos estar. e por esta altura o peito já dói demasiado para ignorar.

a boca já está seca por aquilo que vamos dizer a seguir e que queima a boca apenas por roçar os lábios que um dia disseram o que era o amor.

mas chega sempre o dia em que o inevitável se torna um momento real e palpável: chega sempre aquele outro dia em que não conseguimos fugir mais e o corpo é encostado a uma parede que não rui e que se tornou pequena demais para nos amparar o corpo.

abrem-se os olhos e todos os nossos crimes vagueiam por entre as pálpebras. os rostos abandonados à escrita reerguem-se e afirmam que nada está como devia

e que desta vez são os nossos lençóis que vamos deixar desfeitos, ainda mornos, a esquecer lentamente o nome que tivemos naquela casa.

agora não há uma face esvanecida que diga, em surdina, que está   tudo    bem.

segunda-feira, junho 16, 2014

voltar

Sei como é andar na rua sem ter um sítio para  ir. e apenas saímos de casa porque nada há lá que nos segure.

Lembro-me de há uns anos ter um rosto de sorriso fácil. e também de quando deixei de o ter.

 foi mais ou menos por essa altura que as paredes ruíram e o calor do corpo substituiu o calor do sorriso.

passaram.-se anos sem que sentisse novamente os lábios abrirem como se fossem uma barragem que prende cá dentro a criança que fui.

e avisaram-.me sobre o que viria depois
mas preferi ignorar. 

nesses momentos, todo o meu corpo chorava o suor de noites perdidas em conversas inócuas e sem sentido porque apenas  empurram o rosto em direcção àquela pequena fotografia que te roubei um dia

e de tanto olhar, o teu rosto cândido e estupidamente feliz foi-se gastando, até que o teu nome desapareceu da assinatura da carta de despedida.

por tudo isto, fumei em catadupa e bebi como um ímpio, para fustigar o corpo por ter olhado para trás tarde de mais,

quando já não consegui ir buscar-te ao fim do mundo e voltar para casa.

mas eis que alguém anónimo, que sorri por detrás da sua memória, nos toca no braço assim, como que por acidente, e nos diz que perdemos o norte.

domingo, maio 18, 2014

o lado errado.


há momentos em que a nossa voz vagueia e imagina como seria um outro mundo, um sítio onde
conseguíssemos diluir-nos sem medos ou poder simplesmente tornar nossa a ebriedade do mundo
e possuir-.me, nomear-.me e não esquecer quem fui ou quem me tornei.

lembro-me de não crer que chegaria aqui, que nunca chegaria o momento em que estaria do lado de fora daquela porta
sem ter presente a imagem do que me fez vir embora.

sei o que me permiti deixar para trás e tenho nas pálpebras o peso das noites mal dormidas, a imaginar
outros dias.,

tatuei o corpo e de nada me valeu. deixei cair por mim os poros de sal que prometi a mim mesmo
nunca mais deixar sair

porque me vi do lado errado do espelho

agora, resta-me construir as paredes que me vão amparar na posição débil que escolhi,
e uma a uma surgem erectas.

tudo isto  para poder estar de volta ao menino que fui - e que grita - e que nunca pensou ouvir impossíveis pela
noite fora , de cigarro ao canto da boca, a tentar retornar a dentro de si.

nada mais pareço senão um fugitivo da minha pele:
um sem fim de viagens imaginarias e de
sonhos inacabados.

apesar de tudo isto, digo à menina que foste que me encontro a cada dia em cada rua, em cada edíficio,
e nada mais existe que a aversão pelos nomes que semeias ao frio, porque sei que nenhum deles

é o meu.

segunda-feira, maio 14, 2012

Por uma noite.

Não sei se foi por uma noite ou por uma vida.

Ainda me ensombra a dúvida sobre o que pairou sobre nós, naquele momento, após todas aquelas horas, a aguardar o beijo que se deu.

Nunca imaginei o depois: nunca pudera imaginar que um sorriso perfeito pudesse esconder a perfidez da tua pele; nunca senti, no meu âmago, que pudesses responder com balas a carícias.

a tua capa negra deixou o teu cheiro cravado nos meus dedos. e os teus bem presentes na minha pele. de todas as maneiras.

Aquele que fui agradeceu a quem te tornaste pelo café da manhã. Agradeceu pelo bom dia dado devagar, apesar da pressa incessante; agradeço as noites e os dias e a leveza do corpo durante tanto tempo.

Ao princípio, receava ter sido por uma noite. Receava o sonho ao invés da realidade.

E agora que sei quem és, receio passar por tudo de novo. Mas lábios negros ficam para trás e desaparecem nas tatuagens de outrora.

quarta-feira, maio 02, 2012

all she knows.

"Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio." Heráclito.


Nunca me avisaram que tal não era possível. Sempre julguei que poderia lavar o corpo na mesma água, nas mesmas gotas salgadas e no mesmo local. 

e por isso criámos castelos de algodão que se desmoronam com o vento e com os gritos. 

gestos rápidos e brutos substituíram os sorrisos. reflexos incontroláveis tomaram o lugar da leveza que se abria no peito e não há cigarro algum que consiga afastar essa dormência.

erguem-se paredes para controlar o que não consegues parar de dizer. fecham-se as portas para não ouvir, lava-se o chão para trazer de volta o brilho de outros dias, quando há um mundo em alvoroço para esquecer.

e julguei, em duzentos e oitenta e três dias, que tinha mudado. que eu não era mais eu

mas o meu nome não o perdi.




listening: All she knows, Bruno Mars.

sexta-feira, agosto 05, 2011

lábios negros

toda a minha pele recorda aquele primeiro momento,
aquele primeiro beijo em que diríamos tudo o que
poderíamos dar a conhecer, daí para a frente.

tenho bem presentes nos dedos os segundos que antecederam o primeiro toque no cabelo, o primeiro olhar

tão cheio de desejo e intenção

do concretizar da emoção que criaste.
sei as vontades que os nossos peitos escondem
de viver uma realidade diferente, de ter o tempo do nosso lado
ou
simplesmente o lugar
sem olhares fugazes
sem despedidas incompletas e apressadas.

possúo a tua pele e o teu sorriso,
deixo o teu cheiro sentar-se bem ao meu lado apenas para ouvir a tua voz
dizer que
não é por uma noite que vicio os teus lábios negros.

sábado, julho 16, 2011

Terra e sal.

é quase impossível explicar-te porque não fiquei no nosso retrato. dizem todos que a vida dá muitas voltas e sei que deixei o teu sorriso para trás.






era tudo o que menos queria. aquele sorriso que existia quando me sentias o cheiro. o sorriso que desvelavas quando me olhavas, tão cheia de amor e de sonhos.






tenho a perfeita noção do teu rosto enquanto dormias. e sim, vi-te dormir. vi-te fechar os olhos de cansaço, vi-te imaginar-nos, anos à frente, e sorrires por isso.



vi-te sentir a minha pele mais enrugada, tocares os meus cabelos mais grisalhos, tal como a barba que dizias não gostar.






e nessa fotografia eu fumava e mesmo assim tu sorrias. sorrias porque me tinhas pela mão, porque estaríamos não sei onde a fazer não sei o quê, mas estaríamos.






mas tudo isso foi deitado à terra, com sal para derreter. as nuvens que te sombreavam o rosto adensaram-se e tornaram-se escuras.






e de repente tudo aquilo que sempre me disseras tornara-se realidade. todas as defesas que eu havia quebrado tiveram uma razão de existir e eu perdi novamente o meu nome.






já não sei mais como me chamo. e sei que digo ter uma razão para tudo. sei que digo que sei tudo. e preferia não saber.






Como tu própria dizes: sei o que pensas sem dizeres uma palavra. e ainda hoje vejo. ainda hoje te consigo olhar, por mais que não queiras.



e hoje o manto branco cobre-te os olhos tristes sem que eu os possa beijar, em jeito de perdão, porque sei que os teus lábios estão retesados e fechados



porque sorrir foi algo que levei comigo e a doçura dos teus olhos ficou guardada no armário.



terça-feira, abril 12, 2011

O que há a dizer quando queremos parar de sonhar?

Nada. Há momentos em que o corpo deixa de imaginar coisas que não poderá ter, a mente deixa de desejar vultos que fogem e que não se sabe onde param.

os lábios regressam ao seu sabor salgado e seco

e é como se tudo fosse como antes:

a casa parece novamente mais vazia e os passos ecoam no soalho gélido. Os olhos percorrem o chão à procura de cartas inventadas à pressão mas não há letras que descrevam certos momentos

não há ninguém que conheça tudo aquilo que és e serás sempre uma surpresa com um sorriso nos lábios.

domingo, novembro 14, 2010

Sónia

agarro a tua mão, como todas as noites. olho o teu rosto na minha mente, recordo cada milímetro, cada aroma, cada toque e quando dou por mim, as minhas mãos desenham no vácuo da casa os teus olhos, com a precisão de um artífice.

e assim consigo ver-te outra vez. recordo agora a viagem que me levou a ti. recordo o que encontrei e o que perdi. e sei que consegui.

sei, hoje, onde estás. sei novamente o sabor da tua pele e dos teus lábios. consigo ouvir a tua voz sem ser na memória e por tudo isso, agradeço.

e é assim que te amo, Sónia: imenso, todos os dias um pouco mais.

domingo, outubro 10, 2010

tudo isto começa sempre no mesmo sítio: no interior da algibeira.

andamos normalmente pelas ruas. uns dias chove, outros dias nem tanto. e o nosso rosto ressente-se disso. mas continuamos

até ao momento em que metemos as mãos aos bolsos, para nos protegermos dos invernos escuros e rugosos:

encontramos bilhetes de autocarro ou papéis impressos em máquinas,
num determinado momento,
em que estávamos acompanhados por
uma determinada pessoa ou assoberbados por
um determinado sentimento

e volta tudo de rompante.

aí, a mente recorda aquilo que fez ou que imaginou; o peito reescreve nas veias o ritmo a que o sangue pulsava, no momento em que as paredes secas pararam os gritos

e recordo a tua pele marcada e isso queima-me as pálpebras.

a minha voz encapela-se à medida em que te quer ver, de baixo para cima, e dizer que tudo não passou de um caminho errado, de um reflexo inesperado e impossível de reviver

mas, todas as noites, essa imagem retorna aos lençóis quentes e relembra o rosto que se viu ao espelho e não se reconheceu.

podia não ter sangue em redor do olhar, podia haver silêncio e uma aparente calmia mas
afinal eu não sei sempre tudo: assim notei que o espelho não produzia reflexo

e me enclausurei.

foi a partir daí que refiz o caminho de volta. não recordo a data, não recordo o momento - sabes que a minha memória já não é o que era

e talvez por isso tente apagar dos lábios o nome das crianças por nascer,
mas mesmo assim sei-os de cor, até que me amparem o corpo

ou me façam esquecer as tuas fotografias.

terça-feira, outubro 05, 2010

posso dizer que o meu corpo precisa de um início, que precisa de ser uma pele branca, sem cortes nem cicatrizes

mas não as consigo perder, por mais que queira.

tenho-as comigo, tenho-as tatuadas na derme e a primeira coisa que vês são as vozes que gritam, assim que te aproximas de mim.
e por mais que as tente calar, o meu corpo só obedece a ele próprio e, por tudo isso, nos separamos.

mas, mesmo assim, a minha garganta insurge-se contra os muitos anos de verdades dúbias e sentimentos desacertados:

tento recuperar a liberdade que um dia consegui sentir; o sorriso genuíno que, após largos anos, já não sei reproduzir; recupero os nomes que enumerámos e o rosto do nosso filho que não vimos nascer; o calor da pele que surge de rompante e emerge pelos lábios, até que consiga nomear-te e dar-te um rumo

e com tudo isto olho-te, à janela, do lado de fora. observo tudo aquilo que conseguiste sem mim, e vou embora.

terça-feira, agosto 17, 2010

paredes secas.

dizemos às pessoas que gostamos, que dói mas passa.

ouvi-mo-las chorar perto de nós, aperta-se-nos o peito ao ponto de querermos
derrubar as paredes em actos violentos porque aquela criança em delírio
lhes irrompe pelo peito frágil

e o nosso aqui, tão estéril e seco.

tentamos reduzir as suas vidas a momentos fugazes,
a minutos em que nos amaram e eis que, então, saltamos logo para o final

fast forward para o amo-te mas não consigo mais viver contigo. the end.

sabemos que a casa ruirá, nestas quartas feiras de luto. mas naquela altura não. doía como não julgáramos, enquanto amantes,
ser possível

mas ardia e sangravam as mãos como se fossem feitas de veneno
o mesmo que rolava das faces impossíveis de nomear

e onde hoje existe apenas o pó que rola e se reproduz pelas planícies de sonhos eróticos,
perdidos em quem os tem
mas que não os partilha: porque a substituição é mais fácil
que o esquecimento

mas há incêndios que jazem sob a pele e queimam nos verões
em que não queremos o frio da despedida.

segunda-feira, junho 07, 2010

partem em busca de paz porque o seu mundo se tornou insalubre.

compraram bilhetes e deram o pequeno passo que as levou para longe. não sei qual seria o seu destino, ou sequer se teriam algum.

e aí surgiu um fosso na pele que se encheu de palavras vãs. surgiram gritos que não queimaram a distância tão bem como queimam os cigarros

fuma-se para perder os nomes.

e trazem uma vida nova nos seios. trazem novos nomes, novas caras e expressões e é como se não nos conhecêssemos. as memórias ficam turvas, os toques e os cheiros perdem-se pelo corpo

percorremos as insónias como as ruas da cidade que se agita enquanto tentamos apagar de nós as discussões patéticas

que nos afastam simultâneamente.