por vezes todos sabemos que precisamos do silêncio para sobreviver. precisamos da solidão para podermos olhar para nós próprios e saber quem somos, que somos algo mais que uma imagem desfocada no espelho enquanto nos afastamos dali.
olhamos estradas vazias e nocturnas como se não tivessem fim. pensamos que temos um destino a cumprir, que há algo de maior que nos conduz a um sítio que não sabemos onde é e terminamos sem saber como lá chegar.
paradise lost.
as músicas repetem-se nos ouvidos e assomam-se às pálpebras imagens ténues de rostos e de gentes. e é quando pensamos em tudo isto que notamos que nunca é tarde ou cedo demais para fazer algo que nunca fizemos:
podemos escrever mensagens na estrada para toda a gente ver e questionarem-se para quem será, ao mesmo tempo que esse alguém abre uma janela num 4º andar e olha, surpresa, para aquelas letras a verde, que lhe arrebatam o espírito - então, tinha um significado. agora, já o tempo apagou tudo isso.
voltamos ao presente, numa sala em silêncio - sim, porque precisamos do silêncio para nos sentirmos a nós próprios - e damos por nós a escrever e a recordar Rainer Maria Rilke que dizia algo como "acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever?": sim, temos de escrever porque não há outro modo de sentir.
cigarros. o seu cheiro nas mãos é inconfundível e indissociável daquilo que somos. tal como as tatuagens. obrigam-nos a olhar para dentro, apesar de estarem sobre a pele, ou entre ela. aí, notamos a necessidade emergente que se enclausurou, em tempos, nos resquícios do peito e que procura, ainda hoje, um striptease entre dois amantes cujas conversas são poemas inacabados à espera de uma noite eterna.
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segunda-feira, março 02, 2009
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Caros, Infomo que já se encontra disponível para compra o livro Outros dias existem muitos. Poderão adquirir online o mesmo, carregando aqui. O preço é de 16€.
Podem também comprá-lo nas seguintes livrarias:
-Livraria Letra (Lisboa)
-Livraria Poetria (Porto)
-Tubo de Ensaio (Figueira da Foz)
-Letra 12 (Barreiro)
-Real Feytoria (Porto)
Caso prefiram, poderão entrar em contacto comigo para solicitar um exemplar, através do mail xarepesa@vodafone.pt
Espero que gostem da obra. Quaisquer críticas/questões/pedidos, estou à disposição através do e-mail indicado acima.
Sérgio Xarepe
sexta-feira, novembro 28, 2008
rush.
não sei como criar viagens no teu rosto azul e infantil. vejo a tua pele a saber a sal e apetece-me tocar-lhe, como se fosse um espelho em lágrimas onde o meu rosto se quebra em estilhaços estéreis
e damos-lhe um nome de criança.
toco-te as mãos para criar o calor febril de quem tem uma doença incurável a crescer no peito; sei que o teu nome já foi meu e mesmo assim chamei-te.
posso esvaziar os bolsos à procura de bilhetes, deitar fora as garrafas e os maços vazios, tirar o pó dos dedos para que escrevam
e mesmo assim o teu rosto vai saber a sal porque encaixas com perfeição no que resta da palma da minha mão.
e damos-lhe um nome de criança.
toco-te as mãos para criar o calor febril de quem tem uma doença incurável a crescer no peito; sei que o teu nome já foi meu e mesmo assim chamei-te.
posso esvaziar os bolsos à procura de bilhetes, deitar fora as garrafas e os maços vazios, tirar o pó dos dedos para que escrevam
e mesmo assim o teu rosto vai saber a sal porque encaixas com perfeição no que resta da palma da minha mão.
domingo, novembro 23, 2008
V
acordas com os lábios secos a meio da noite. não sabes porquê.
acendes o cigarro à pressa porque queres adormecer e tens, colado aos olhos, o rosto que te surgiu durante o sono:
lembras a cor dos cabelos, os traços e a feição perfeita. até consegues sentir o cheiro nos dedos, misturado com o odor amargo do tabaco aceso.
molhas os lábios com a língua, passas a mão pelo rosto e sentes o teu respirar pesado, sôfrego, como se fosses implodir na penumbra, sem emitir qualquer som.
abres os olhos e ganhas a inevitável certeza que te diz a quem o filho pertence e qual o ventre que te espera na sala, sentada no sofá, com um olhar doce à tua espera
e um beijo de destino anónimo guardado lá dentro.
acendes o cigarro à pressa porque queres adormecer e tens, colado aos olhos, o rosto que te surgiu durante o sono:
lembras a cor dos cabelos, os traços e a feição perfeita. até consegues sentir o cheiro nos dedos, misturado com o odor amargo do tabaco aceso.
molhas os lábios com a língua, passas a mão pelo rosto e sentes o teu respirar pesado, sôfrego, como se fosses implodir na penumbra, sem emitir qualquer som.
abres os olhos e ganhas a inevitável certeza que te diz a quem o filho pertence e qual o ventre que te espera na sala, sentada no sofá, com um olhar doce à tua espera
e um beijo de destino anónimo guardado lá dentro.
domingo, novembro 16, 2008
às vezes consegues sentir os sonhos na palma da mão.
e é quando tudo caminha para a rua certa que uma luz se apaga e mesmo assim consegues ver no meio da penumbra. vês um par de olhos de água, consegues ver o seu sorriso e pensas: "o que estarias a pensar?" e sabes que não terás resposta.
esperas com o corpo em repouso. recordas o calor das ilhas como se lá tivesses estado e sabes que há algo que não te poderão tirar: a criança que trazes cá dentro.
e abraças e dás a mão e acaricias para que sossegue mas, ao mesmo tempo, prendes-lhe a mão porque não queres que se vá embora.
e é quando tudo caminha para a rua certa que uma luz se apaga e mesmo assim consegues ver no meio da penumbra. vês um par de olhos de água, consegues ver o seu sorriso e pensas: "o que estarias a pensar?" e sabes que não terás resposta.
esperas com o corpo em repouso. recordas o calor das ilhas como se lá tivesses estado e sabes que há algo que não te poderão tirar: a criança que trazes cá dentro.
e abraças e dás a mão e acaricias para que sossegue mas, ao mesmo tempo, prendes-lhe a mão porque não queres que se vá embora.
terça-feira, setembro 23, 2008
Outros dias existem muitos
Ao caro leitor que por vezes se perde e encontra neste blog:
Tenho o prazer de informar que o livro "Outros dias existem muitos" será publicado em Outubro, numa data a confirmar posteriormente.
one more perfect day.
Tenho o prazer de informar que o livro "Outros dias existem muitos" será publicado em Outubro, numa data a confirmar posteriormente.
one more perfect day.
domingo, setembro 14, 2008
Equilíbrio
Pegas no controlo remoto que julgas ter sobre a vida e colocas em silêncio. Sentas-te meticulosamente a meio do sofá já gasto para teres o equilíbrio que por vezes escapa.
procuras palavras entre comentários desconhecidos e rostos onde não os há. "a tarefa de sentir é lixada".
- se não estiveres aí, não sei onde estou. o corpo procura uma direcção, um caminho com tabuletas estéreis onde tudo aquilo que a pele deita fora possa significar algo.
esqueces amigos porque deixas os dias passarem sob a pele, sem que lhes digas o que são ou o que tiveram. a tua voz escala paredes da casa mas é como se, no vácuo, não existisses:
tens cor, tens temperatura mas estás vazio.
perguntam-te: a quem te dás? e a resposta teima em ser igual. recordas discursos longos e poemas infrutíferos. tacteias os rostos que ainda queimam as pálpebras de vez em quando
tentar dormir é inútil, tens fantasmas que gritam nas tuas mãos.
e escreves. colocas-te agora à janela. Olhas para a casa como se estivesse vazia e apenas sentes que esta não é a tua casa.
obrigas-te a gostar dos cantos, das paredes, dos tapetes mas, mesmo assim, não é aqui que moras. o teu nome não está escrito à porta, os vizinhos não te conhecem, os lençóis não têm o teu cheiro.
é apenas um espaço oco e frio, onde o corpo se imiscui noutros corpos numa busca vã de amor, sem que o saibas soletrar. perdeste a voz quando começaste a viajar e nem as cidades sem nome conseguem fazer-te parar a procura
de um rosto com nome.
procuras palavras entre comentários desconhecidos e rostos onde não os há. "a tarefa de sentir é lixada".
- se não estiveres aí, não sei onde estou. o corpo procura uma direcção, um caminho com tabuletas estéreis onde tudo aquilo que a pele deita fora possa significar algo.
esqueces amigos porque deixas os dias passarem sob a pele, sem que lhes digas o que são ou o que tiveram. a tua voz escala paredes da casa mas é como se, no vácuo, não existisses:
tens cor, tens temperatura mas estás vazio.
perguntam-te: a quem te dás? e a resposta teima em ser igual. recordas discursos longos e poemas infrutíferos. tacteias os rostos que ainda queimam as pálpebras de vez em quando
tentar dormir é inútil, tens fantasmas que gritam nas tuas mãos.
e escreves. colocas-te agora à janela. Olhas para a casa como se estivesse vazia e apenas sentes que esta não é a tua casa.
obrigas-te a gostar dos cantos, das paredes, dos tapetes mas, mesmo assim, não é aqui que moras. o teu nome não está escrito à porta, os vizinhos não te conhecem, os lençóis não têm o teu cheiro.
é apenas um espaço oco e frio, onde o corpo se imiscui noutros corpos numa busca vã de amor, sem que o saibas soletrar. perdeste a voz quando começaste a viajar e nem as cidades sem nome conseguem fazer-te parar a procura
de um rosto com nome.
domingo, agosto 17, 2008
faces
As noites são as horas intermináveis de espera. respira-se sofregamente para que o suor se extinga
para que os medos desapareçam.
Relembras o gesto com as palavras à mistura. Estendes a mão em jeito de cumprimento - ficas na dúvida se o deverias ter feito.
a distância é grande e és notado pela personagem do conto de fadas.
a tua derme respira incessantemente como que a querer fugir de ti próprio: tens novamente um corpo dentro de ti a querer ocupar-te, a querer rasgar-te a pele para que não te reconheças mais.
dizes: já sabia o teu nome e o teu rosto antes de te conhecer
e acordas em sobressalto sabendo que não era real. os teus lábios estão secos, as tuas mãos tremem e contorcem-se porque a realidade é diferente e o calendário marca outro dia.
olhas para o lado e vês mais um nome para esquecer. sentes o cheiro a sexo em ti e nas paredes do quarto. não há sangue, não há carne espalhada.
apenas mais um rosto para esquecer enquanto tentas lembrar aquele que fugiu
this is the end of magic.
para que os medos desapareçam.
Relembras o gesto com as palavras à mistura. Estendes a mão em jeito de cumprimento - ficas na dúvida se o deverias ter feito.
a distância é grande e és notado pela personagem do conto de fadas.
a tua derme respira incessantemente como que a querer fugir de ti próprio: tens novamente um corpo dentro de ti a querer ocupar-te, a querer rasgar-te a pele para que não te reconheças mais.
dizes: já sabia o teu nome e o teu rosto antes de te conhecer
e acordas em sobressalto sabendo que não era real. os teus lábios estão secos, as tuas mãos tremem e contorcem-se porque a realidade é diferente e o calendário marca outro dia.
olhas para o lado e vês mais um nome para esquecer. sentes o cheiro a sexo em ti e nas paredes do quarto. não há sangue, não há carne espalhada.
apenas mais um rosto para esquecer enquanto tentas lembrar aquele que fugiu
this is the end of magic.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
medo.
porque partiste há meses e nunca mais voltaste aqui?
usas a pele como ponte para o silêncio. vês rostos antigos passarem-te à frente mas o teu corpo está tão pesado que não consegues lá chegar
quis falar contigo quando nasceste
mas sei que não me entenderias. pensei: tenho tempo. afinal era engano: o tempo esgotou e continuas sem me entender.
sabes os gritos de cor, sabes as palavras que se usam em cada momento ou em cada maneira de sentir: sabes exactamente o passo a dar quando a tua mente se inebria com perfumes baratos em locais escuros.
- tudo o que querias era aquela música outra vez
e sabes que foste o primeiro mas de nada te vale. sabes que perduras e que ainda recordam o teu cheiro; sabes que quiseste partir para um sítio longe daqui porque, depois de algo tão grande, tudo te parece pequeno para te preencher.
há-de chegar o dia em que, no meio de tanta gente que te observa as rugas, te deparas com aquela que te vê apenas o medo.
usas a pele como ponte para o silêncio. vês rostos antigos passarem-te à frente mas o teu corpo está tão pesado que não consegues lá chegar
quis falar contigo quando nasceste
mas sei que não me entenderias. pensei: tenho tempo. afinal era engano: o tempo esgotou e continuas sem me entender.
sabes os gritos de cor, sabes as palavras que se usam em cada momento ou em cada maneira de sentir: sabes exactamente o passo a dar quando a tua mente se inebria com perfumes baratos em locais escuros.
- tudo o que querias era aquela música outra vez
e sabes que foste o primeiro mas de nada te vale. sabes que perduras e que ainda recordam o teu cheiro; sabes que quiseste partir para um sítio longe daqui porque, depois de algo tão grande, tudo te parece pequeno para te preencher.
há-de chegar o dia em que, no meio de tanta gente que te observa as rugas, te deparas com aquela que te vê apenas o medo.
terça-feira, novembro 27, 2007
essência
penduras no corpo as cruzes do dia que passou e pedes a gente conhecida que te olhe e te diga que não és invisível.
tens na voz o nervosismo da hora; o cansaço começa a apoderar-se das tuas memórias e apenas olhos reluzentes surgem, no meio de actos impensados e imberbes
depois de tudo, acordas.
metes as mãos à cabeça e afagas a barba como que a pedir perdão por não conseguires descansar. pedes ajuda em tons de surdez
e ninguém ouve
partes à procura de conversas imperceptíveis; prescrutas as ruas da cidade para lhe tomares o gosto e descobrires o seu nome. os olhos doem-te do esforço de ver
reconheces em todos rasgos de
mágoa e
de arrependimento
fazes-te à estrada sem olhares para as placas. não queres saber quilometragens ou direcções. caminhas sem fim e sem espírito: tudo o que eras ficou no quarto, preso à cama, momentos antes de fechares a porta.
tens na voz o nervosismo da hora; o cansaço começa a apoderar-se das tuas memórias e apenas olhos reluzentes surgem, no meio de actos impensados e imberbes
depois de tudo, acordas.
metes as mãos à cabeça e afagas a barba como que a pedir perdão por não conseguires descansar. pedes ajuda em tons de surdez
e ninguém ouve
partes à procura de conversas imperceptíveis; prescrutas as ruas da cidade para lhe tomares o gosto e descobrires o seu nome. os olhos doem-te do esforço de ver
reconheces em todos rasgos de
mágoa e
de arrependimento
fazes-te à estrada sem olhares para as placas. não queres saber quilometragens ou direcções. caminhas sem fim e sem espírito: tudo o que eras ficou no quarto, preso à cama, momentos antes de fechares a porta.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Já não te guardo raiva. sabes isso.
já não guardo em mim as fotografias que tirámos, as músicas que ouvimos, nada. guardo apenas o teu sorriso de quando te vi pela primeira vez. guardo apenas o teu primeiro olhar de quando desceste pelas escadas e soubeste que iria terminar, um dia.
sei de cor cada momento que aconteceu nesse dia. e ainda sei o teu nome como se fosse meu mas .. apenas isso. estás por aí, algures. deves estar bem porque as más notícias correm sempre mais depressa e essas ainda não me chegaram. espero também que tenhas alcançado a tua paz. a minha, essa, ainda está longe. existem imensas coisas que poderia dizer-te e que guardei durante anos. imaginei por diversas vezes se o teu sorriso está diferente, se o toque das tuas mãos ainda tem a mesma ternura ou o mesmo cheiro. guardo para mim a imagem que tenho de ver-te dormir. e essa não mostro a ninguém porque apenas eu vi. era eu que te velava o sono e agora já não. os nomes que escolhemos juntos já não se adequam aqueles que contigo crescerão e que vão aprender por ti o que é isto tudo: o mundo. e sempre disseste que eu tinha uma visão muito peculiar dele, quiçá especial. e eu sorria.
posso dizer-te que aquele que era contigo já não existe mais; que os olhos que te olhavam, doces, já não brilham da mesma maneira. hás-de, um dia, olhar para trás e sentir no teu peito o peso que tive no teu mundo. e se, por acaso, não conseguires respirar, será porque te falto e porque estou diferente.
já não tenho o mesmo nome que ouviste outrora. as minhas mãos já não escrevem como antes. as tuas sim. mas quero que guardes em ti a certeza de que foram estas mesmas mãos que escreveram no asfalto "amo-te" como se fosse eterno e são elas que hoje te dizem: já não te amo mais, fui embora.
já não guardo em mim as fotografias que tirámos, as músicas que ouvimos, nada. guardo apenas o teu sorriso de quando te vi pela primeira vez. guardo apenas o teu primeiro olhar de quando desceste pelas escadas e soubeste que iria terminar, um dia.
sei de cor cada momento que aconteceu nesse dia. e ainda sei o teu nome como se fosse meu mas .. apenas isso. estás por aí, algures. deves estar bem porque as más notícias correm sempre mais depressa e essas ainda não me chegaram. espero também que tenhas alcançado a tua paz. a minha, essa, ainda está longe. existem imensas coisas que poderia dizer-te e que guardei durante anos. imaginei por diversas vezes se o teu sorriso está diferente, se o toque das tuas mãos ainda tem a mesma ternura ou o mesmo cheiro. guardo para mim a imagem que tenho de ver-te dormir. e essa não mostro a ninguém porque apenas eu vi. era eu que te velava o sono e agora já não. os nomes que escolhemos juntos já não se adequam aqueles que contigo crescerão e que vão aprender por ti o que é isto tudo: o mundo. e sempre disseste que eu tinha uma visão muito peculiar dele, quiçá especial. e eu sorria.
posso dizer-te que aquele que era contigo já não existe mais; que os olhos que te olhavam, doces, já não brilham da mesma maneira. hás-de, um dia, olhar para trás e sentir no teu peito o peso que tive no teu mundo. e se, por acaso, não conseguires respirar, será porque te falto e porque estou diferente.
já não tenho o mesmo nome que ouviste outrora. as minhas mãos já não escrevem como antes. as tuas sim. mas quero que guardes em ti a certeza de que foram estas mesmas mãos que escreveram no asfalto "amo-te" como se fosse eterno e são elas que hoje te dizem: já não te amo mais, fui embora.
segunda-feira, novembro 19, 2007
tinhas a janela à tua frente e ouvias orquestras para sossegar o silêncio.
a janela negra era como o teu rosto que acorda durante a noite, febril. abrias os olhos com palavras em voos picados pelo quarto, palavras que sobrevivem e se reproduzem no escuro da solidão jovem.
procuravas sons que as tuas mãos sabem criar mas já nada existia: havia pessoas lá fora. havia quem tentasse olhar pela janela: por curiosidade; para tentar esquecer as suas próprias casas ou simplesmente por desatenção.
mas vidros opacos são óptimos espelhos.
decidiste, então, lavar o vidro. semi-cerraste os olhos para que a luz não os magoasse ou para que todas aquelas imagens que sobram do mundo não te penetrassem pelas pupilas dilatadas, perturbando o sono que se apoderava de ti.
- as noites são tumultos e revoltas de nomes que teimaste em esquecer.
limpaste do vidro anos e dias de medo. o teu corpo tremia, os dedos já não circunscreviam a tua dor como antes. notaste um vulto acercar-se a ti. permaneceste por detrás do vidro mas a tua respiração tornara-se ofegante
suas e os ombros encolhem-se
receavas a voz que surgiria, o que diria ou os silêncios que traria consigo. o rosto negro assomou-se à tua janela e observaste apenas os seus lábios gretados pelo frio.
apenas conseguias dar atenção à derme mal cuidada, o cabelo descolorado e imperfeito. dentro da tua memória reconheceste feições similares. não sabes quem é.
procuraste e ainda procuras o nome que te crescia por debaixo da lingua, preso à pele e sem conseguir soltar-se de ti.
tens tudo escrito na tua pele apenas para que não tornes a dizer o mesmo.
tentaste abrir a janela mas apenas o vento entrou pelo quarto, arejando as folhas amarelecidas e gastas: perdeste o teu sorriso quando tentaste recordar quem foste.
a janela negra era como o teu rosto que acorda durante a noite, febril. abrias os olhos com palavras em voos picados pelo quarto, palavras que sobrevivem e se reproduzem no escuro da solidão jovem.
procuravas sons que as tuas mãos sabem criar mas já nada existia: havia pessoas lá fora. havia quem tentasse olhar pela janela: por curiosidade; para tentar esquecer as suas próprias casas ou simplesmente por desatenção.
mas vidros opacos são óptimos espelhos.
decidiste, então, lavar o vidro. semi-cerraste os olhos para que a luz não os magoasse ou para que todas aquelas imagens que sobram do mundo não te penetrassem pelas pupilas dilatadas, perturbando o sono que se apoderava de ti.
- as noites são tumultos e revoltas de nomes que teimaste em esquecer.
limpaste do vidro anos e dias de medo. o teu corpo tremia, os dedos já não circunscreviam a tua dor como antes. notaste um vulto acercar-se a ti. permaneceste por detrás do vidro mas a tua respiração tornara-se ofegante
suas e os ombros encolhem-se
receavas a voz que surgiria, o que diria ou os silêncios que traria consigo. o rosto negro assomou-se à tua janela e observaste apenas os seus lábios gretados pelo frio.
apenas conseguias dar atenção à derme mal cuidada, o cabelo descolorado e imperfeito. dentro da tua memória reconheceste feições similares. não sabes quem é.
procuraste e ainda procuras o nome que te crescia por debaixo da lingua, preso à pele e sem conseguir soltar-se de ti.
tens tudo escrito na tua pele apenas para que não tornes a dizer o mesmo.
tentaste abrir a janela mas apenas o vento entrou pelo quarto, arejando as folhas amarelecidas e gastas: perdeste o teu sorriso quando tentaste recordar quem foste.
quarta-feira, novembro 14, 2007
146
are you able to go back to the start ?
em silêncio, se ninguém te dirigir a palavra, consegues encontrar o caminho novamente para casa ? tens trocos no bolso para pagar o bilhete de autocarro que, anos mais tarde, encontrarás novamente no bolso e te fará recordar ?
naquele momento, entraste. olhaste o motorista, olhaste novamente para a casa que se fechou por detrás de ti e foste embora. não sabias se era a última vez. mas foste embora, mesmo assim.
voltaste uma e outra vez. continuas a passar lá, de quando a quando, a tentar provar a ti próprio que consegues esquecer um caminho que tantas vezes fizeste.
tinhas um farol que já ruiu.
e dás por ti a olhar para a frente enquanto o motorista - sempre ele - quase te grita aos ouvidos o preço do bilhete que sabes de cor. pagas, esqueces o nome, sentas-te lá para trás onde ninguém te vê e para que possas olhar à vontade, esqueces o sabor que trazes colado aos lábios
soletras as letras do seu corpo, baixinho, como se fosse este o momento em que lhe constróis o rosto - e apagas os mapas.
o autocarro parte. tu partes com ele mas, atrás de ti, bem à porta do nº 20, 4º esquerdo, ficaste tu. resta agora saber se vais voltar para que te reconheças novamente e saibas que já não és o mesmo que tantas vezes esperou, sentado, com frio, na paragem do 146.
em silêncio, se ninguém te dirigir a palavra, consegues encontrar o caminho novamente para casa ? tens trocos no bolso para pagar o bilhete de autocarro que, anos mais tarde, encontrarás novamente no bolso e te fará recordar ?
naquele momento, entraste. olhaste o motorista, olhaste novamente para a casa que se fechou por detrás de ti e foste embora. não sabias se era a última vez. mas foste embora, mesmo assim.
voltaste uma e outra vez. continuas a passar lá, de quando a quando, a tentar provar a ti próprio que consegues esquecer um caminho que tantas vezes fizeste.
tinhas um farol que já ruiu.
e dás por ti a olhar para a frente enquanto o motorista - sempre ele - quase te grita aos ouvidos o preço do bilhete que sabes de cor. pagas, esqueces o nome, sentas-te lá para trás onde ninguém te vê e para que possas olhar à vontade, esqueces o sabor que trazes colado aos lábios
soletras as letras do seu corpo, baixinho, como se fosse este o momento em que lhe constróis o rosto - e apagas os mapas.
o autocarro parte. tu partes com ele mas, atrás de ti, bem à porta do nº 20, 4º esquerdo, ficaste tu. resta agora saber se vais voltar para que te reconheças novamente e saibas que já não és o mesmo que tantas vezes esperou, sentado, com frio, na paragem do 146.
sexta-feira, outubro 05, 2007
A guerra imortal.
perguntam-te: como estás?
e os lábios não sabem responder. procuras as tuas mãos de modo a poderes tornar sólido, em silêncio, tudo aquilo que se passa dentro de ti
encontras desenhos desconhecidos nas costas de outrém
usas sonhos que teimaste em não usar com mais ninguém: descobres em ti um sorriso inerte que incomoda e que implode
sentes a pele novamente a esticar-se, como se alguém te ocupasse por dentro, a crescer inevitavelmente
até que te rasgue a pele e ocupe o teu rosto
procuras os amigos para trocar algo que não sabes nomear. dizem-te: os teus ombros carregam o peso do mundo
reconheces, então, que sabes de cor todos os nomes, todas as faces e cicatrizes que criaste.
you can make me smile
tomas para ti a sensação do tempo diluído nas pálpebras, as mesmas que teimas em fechar quando olhas de frente o medo
o mesmo que nos faz criar máscaras em vez de pele ou mágoas em lugar de paz
há em ti uma guerra imortal
e tudo o que consegues sentir é a brisa leve, sentado na varanda sobre o mar, onde sabes que um dia te irão reconhecer.
e os lábios não sabem responder. procuras as tuas mãos de modo a poderes tornar sólido, em silêncio, tudo aquilo que se passa dentro de ti
encontras desenhos desconhecidos nas costas de outrém
usas sonhos que teimaste em não usar com mais ninguém: descobres em ti um sorriso inerte que incomoda e que implode
sentes a pele novamente a esticar-se, como se alguém te ocupasse por dentro, a crescer inevitavelmente
até que te rasgue a pele e ocupe o teu rosto
procuras os amigos para trocar algo que não sabes nomear. dizem-te: os teus ombros carregam o peso do mundo
reconheces, então, que sabes de cor todos os nomes, todas as faces e cicatrizes que criaste.
you can make me smile
tomas para ti a sensação do tempo diluído nas pálpebras, as mesmas que teimas em fechar quando olhas de frente o medo
o mesmo que nos faz criar máscaras em vez de pele ou mágoas em lugar de paz
há em ti uma guerra imortal
e tudo o que consegues sentir é a brisa leve, sentado na varanda sobre o mar, onde sabes que um dia te irão reconhecer.
domingo, setembro 09, 2007
falta sempre algo.
começas a noite a trocar insultos e procuras respostas onde os silêncios terminam. antevês a naturalidade das coisas como algo que já não existe
sentes a pele fria
procuras os copos com o mesmo aspecto, enches na mesmíssima medida que no dia anterior, troças novamente do barman de seu ar duvidoso e notas que isso já acontecera antes.
continuas a colocar os pés no mesmo sítio, ligeiramente emparelhados, como se fossem fios de cabelo que te corre pela face.
alguém se sente impotente e sabes que te olhas a ti próprio
apenas para saberes que tentas viver o que já viveste e sentes o espaço em falta.
começas a noite a trocar insultos e procuras respostas onde os silêncios terminam. antevês a naturalidade das coisas como algo que já não existe
sentes a pele fria
procuras os copos com o mesmo aspecto, enches na mesmíssima medida que no dia anterior, troças novamente do barman de seu ar duvidoso e notas que isso já acontecera antes.
continuas a colocar os pés no mesmo sítio, ligeiramente emparelhados, como se fossem fios de cabelo que te corre pela face.
alguém se sente impotente e sabes que te olhas a ti próprio
apenas para saberes que tentas viver o que já viveste e sentes o espaço em falta.
quinta-feira, julho 12, 2007
perfect.
green flames invade your eyes
e de quando a quando o silêncio toma-te as mãos e faz-te escrever na insanidade. vais procurando, aos poucos, sorrisos que te relembrem de onde vieste
olhas para os braços e nada mais
mas tudo está rodeado de corpos sem voz e cabelos esbranquiçados.
noutras alturas conseguiríamos vaguear por entre jovens que passam pelas noites em branco. teríamos a rapidez dos répteis e a fala viperina das mulheres
seríamos perfeitos demais para o mundo que nos viu crescer
and sometimes you just want to write her down and you can't
porque alguns rostos que ainda consegues recordar se tornaram baços e desenhar olhos peles
dedos rectilíneos sem exactidão
é desnecessário
and yet your eyes are made of rain - a tua ausência denota o pouco tempo que perdes a folhear bússolas partidas em que o norte aponta para ti. s
e de quando a quando o silêncio toma-te as mãos e faz-te escrever na insanidade. vais procurando, aos poucos, sorrisos que te relembrem de onde vieste
olhas para os braços e nada mais
mas tudo está rodeado de corpos sem voz e cabelos esbranquiçados.
noutras alturas conseguiríamos vaguear por entre jovens que passam pelas noites em branco. teríamos a rapidez dos répteis e a fala viperina das mulheres
seríamos perfeitos demais para o mundo que nos viu crescer
and sometimes you just want to write her down and you can't
porque alguns rostos que ainda consegues recordar se tornaram baços e desenhar olhos peles
dedos rectilíneos sem exactidão
é desnecessário
and yet your eyes are made of rain - a tua ausência denota o pouco tempo que perdes a folhear bússolas partidas em que o norte aponta para ti. s
terça-feira, julho 10, 2007
Não sei dizer de onde surgiram os muros que ergues no rosto. não consigo desenlear das mãos os finos nós que a tua garganta teceu quando
o meu corpo se te assomou.
os meus olhos são orlas liquídas e imperfeitas: a minha epiderme queima outros que teimam em pousar sem que os autorize. tenho guardado em mim o grito da juventude que te perdeu
e os caminhos sei-os de cor
mas sem que haja uma porta que se abra não há passos a dar. a esta hora o corpo dói e lateja porque o castigo é grande: a verdade arde mas não cura.
tens nomes que o mundo pretende esquecer; fotografias rasgadas pela sanidade e pelos dedos
embebidos em sangue
explodes apenas para ver o que trazes lá dentro
e uma leve brisa de ar sopra-te no rosto e notas que chegaste minutos tarde demais.
o meu corpo se te assomou.
os meus olhos são orlas liquídas e imperfeitas: a minha epiderme queima outros que teimam em pousar sem que os autorize. tenho guardado em mim o grito da juventude que te perdeu
e os caminhos sei-os de cor
mas sem que haja uma porta que se abra não há passos a dar. a esta hora o corpo dói e lateja porque o castigo é grande: a verdade arde mas não cura.
tens nomes que o mundo pretende esquecer; fotografias rasgadas pela sanidade e pelos dedos
embebidos em sangue
explodes apenas para ver o que trazes lá dentro
e uma leve brisa de ar sopra-te no rosto e notas que chegaste minutos tarde demais.
sexta-feira, julho 06, 2007
Mãos.
contornas de maneira rude o corpo que se te depara e que te adormece. deixas os sentidos ficarem à flor da pele
bem rente ao coração
e em vez de palavras gritas faces e gestos obscenos que teimaste em esquecer.
olhas as suas fotografias de quando a quando: recordas os cheiros os olhares e a sua cor
tens para ti bem presente o arrepio do precipício que eram as mulheres
e já nem sabes sequer os seus nomes.
perdes o que de ti ganhaste nos últimos anos: estás velho, tens tatuado no corpo olhos sem rasto que te fitam e que te ultrapassam apenas
para te mostrar
o que de bom existia e que deixaste de semear.
bem rente ao coração
e em vez de palavras gritas faces e gestos obscenos que teimaste em esquecer.
olhas as suas fotografias de quando a quando: recordas os cheiros os olhares e a sua cor
tens para ti bem presente o arrepio do precipício que eram as mulheres
e já nem sabes sequer os seus nomes.
perdes o que de ti ganhaste nos últimos anos: estás velho, tens tatuado no corpo olhos sem rasto que te fitam e que te ultrapassam apenas
para te mostrar
o que de bom existia e que deixaste de semear.
quarta-feira, junho 13, 2007
Fósforo.
por vezes as mãos sangram o pouco que resta da sanidade. todos os dias há um pedaço de ti que se perde nos copos, nos liquídos, nas carnes sem roupa e sem nome.
e por andares perdido encontras rostos ausentes a quem um dia chamaste algo íntimo.
aí surgem nos olhos suores frios e palavras que antes não sabias soletrar.
sabes que partiu
e mesmo assim procuras encurtar distâncias para saber por onde foi, quanto tempo demorou ou se sorriu quando lá chegou.
a uma qualquer cidade sem mapa.
depois, ambos se deitam, no mesmo momento, em lençóis diferentes e frios: tornas teu o seu sorriso e sorris também. a tua pele aquece ao sentir que, algures, ela também toca a sua pele.
passas a mão pelo rosto para sentires que não estás louco
e decides caminhar para fora de ti para não teres o medo que ela teve por saberes que te vais abandonar.
e por andares perdido encontras rostos ausentes a quem um dia chamaste algo íntimo.
aí surgem nos olhos suores frios e palavras que antes não sabias soletrar.
sabes que partiu
e mesmo assim procuras encurtar distâncias para saber por onde foi, quanto tempo demorou ou se sorriu quando lá chegou.
a uma qualquer cidade sem mapa.
depois, ambos se deitam, no mesmo momento, em lençóis diferentes e frios: tornas teu o seu sorriso e sorris também. a tua pele aquece ao sentir que, algures, ela também toca a sua pele.
passas a mão pelo rosto para sentires que não estás louco
e decides caminhar para fora de ti para não teres o medo que ela teve por saberes que te vais abandonar.
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